quinta-feira, março 22, 2007

Férias em Natal. Episódio 3. O Contraponto




Mal entraram no quarto do Ipanema Plaza, as três correram para praia.
-“Preciso de sol com urgência, o inverno português me deixa mais branca que o próprio branco.”, disse Lúcia, enquanto vestia o biquíni.
-“Esses biquínis que você nos fez comprar, Lúcia, são pequenos demais, não sei se vou me sentir confortável. E desde antes do divórcio não visto um, me acho estranha, quase nua.”
-“Sónia, os nossos biquínis jamais combinariam com praia carioca! Estamos as três muito bem fisicamente, não temos nada a esconder.”, respondeu Rita, animando a amiga.
-“ELA não tem nada a esconder, Rita! Nós duas podemos começar pela aliança! Aqui, guardei a minha na nécessaire, guarde a sua junto!”
-“Hã?? Lúcia, imagine que eu vou ficar sem aliança, que besteira.”
Lúcia não deu ouvidos à amiga e, seriamente, abriu a nécessaire em frente a ela.
-“Aqui.”
Rita hesitou, deu um longo suspiro, e obedeceu. Mais por medo da amiga que por qualquer outra coisa.
Caminharam 100 metros até as areias mais badaladas do Brasil, finalmente estavam em Ipanema. Pararam embasbacadas. Não mais com a beleza da praia, mas com os corpos esculturais dos brasileiros ali. Sungas quadradas escondiam o pouco que restava para ser escondido. Homens cheirosos, com cabelos arrepiados e braços sarados desfilavam pelo calçadão.
Ainda paradas, a observar o movimento, ouviram de Lúcia:
“-Ué, que coisa mais bizarra. Como são vaidosos esses brasileiros. Olhem só, eles se depilam!! Olha as pernas daquele loiro ali!!”
“-É, estranho mesmo. Mas mais estranho é que aqui só há homens. Pelo que eu entendo onde há homens é por que há caça no meio, e aqui não há.... A não ser que...”
Sónia parou de falar e olhou para cima. Viu dançando no ar uma linda e enorme bandeira colorida, em forma de arco íris. Perguntou à Lúcia:
-“Você que viajou bem mais que eu, Lúcia, qual era mesmo o símbolo que você viu em São Francisco?”
-“Ah, o símbolo da comunidade homossexual, a bandei....” e também calou-se. Olhou para cima, processou a imagem da praia e sentiu a ficha cair. “É isso!! Não é à toa que Ana Maria disse que nunca havia visto tantos homens lindos no mesmo lugar!!! Eu não acredito, estamos no meio do point gay do Rio de Janeiro!!”
Rita não se agüentou e caiu na risada. Haviam tirado as alianças e estavam todas felizes em achar uma diversão para Sónia, e deram com os burros n´água. Era, no mínimo, engraçado. Era como se mergulhassem em uma piscina de chocolate e sentissem a boca costurada.
-“Pelo menos teremos colírio. Não é o fim do mundo”, disse Rita já caminhando para a areia.
-“Não, não, não!!! Claro que não é o fim do mundo, mas pelo simples fato de que a praia é enorme. Venham vamos andar um pouco mais e sentir o clima. Paramos onde acharmos que vale a pena.”
Não caminharam muito e resolveram se sentar. Ali o público estava mais animador para as três turistas.
Depois de um longo mergulho, voltaram e se sentaram nas toalhas. Observaram, no entanto, que ninguém mais usava toalhas na praia, mas panos coloridos.
-“Iremos providenciar esses panos hoje mesmo! Quero me sentir A carioca!”, planejou Lúcia.
Engataram em uma longa conversa, ainda meio inebriadas pelo cheiro de cidade nova. Rita não conseguia tirar os olhos da ponta direita da praia.
-“É o Morro dos Dois Irmãos, vi no guia.”

De repente, em meio à conversa, Rita percebeu alguém se aproximar. Não sabia se era o efeito da viagem, mas sentiu algo estranho, muito estranho. Mais tarde, no hotel, disse às amigas:
-“Foi como se o tempo parasse, sabe, deixei de ouvir o que vocês estavam a falar... Acho que é o fuso horário...”
Um rapaz alto se agachou perto delas e disse:
-“Desculpem a intromissão, mas percebi que são portuguesas. Vocês estão visitando o Rio, ou moram aqui?”
Lúcia logo se empinou, e respondeu com muita graça:
-“Acabamos de chegar, viemos do aeroporto para a praia, ainda nem conhecemos os pontos turísticos.”
Ele sorriu e se dirigiu à Rita:
-“Só vim falar com vocês por que preciso me acostumar com o português lusitano, vou passar uma longa temporada em Lisboa a partir de fevereiro.”
-“Que coincidência, que vais fazer na nossa terra?”, perguntou timidamente Sónia.
-“Sou professor de literatura, vou fazer um intercâmbio com um professor português, que vem para o Rio.”
Rita engasgou. Ainda não havia se recuperado da bela visão agachada à sua frente. Engoliu seco e perguntou, com um leve temor da resposta:
-“Literatura? Mas..., é....., vais lecionar onde? Alguma escola, suponho?”
-“Não, não... Sou professor universitário. Irei para a Universidade de Lisboa.”
Lúcia e Sónia se viraram imediatamente para Rita. Um silêncio cinematográfico tomou toda Ipanema. Rita sentiu que, não só os cariocas, mas todos os brasileiros a olhavam.
-“Universidade de Lisboa?.... é... eu..... eu também dou aulas lá...”
Ele sorriu.
Nervosa, Rita segurou o dedo anelar da mão esquerda. Suspirou.
Olhou para Lúcia, agradecida....

Continua semana que vem

8 comentários:

Capitão-Mor disse...

Homens de sunga e depilados não são uma visão muito animadora na realidade! :) Sim, porque se há coisa que eu não suporto são essas sungas...

O posto 9 fica muito longe do Plaza? Aí parece que o cenário seria mais propício às intenções delas. Gostei do pormenor das alianças.

Tati disse...

Então, o posto 9 fica em frente, mas ele é dividido. Uma parte é do público GLS e outra dos intelectuais e descolados. Foi nesta parte que ela encontrou nosso herói...

freemind disse...

Boa resposta... não fica em nada atrás do nosso amigo portuga... lol.
Novos episódios se aguardam!

Cláudia disse...

Tati
nada a ver com o post, mas tinha que te contar.
Hj fui comprar chocolate hidrogenado. Aí a moça me pergunta: você quer da marca 1, da marca 2 ou da MIL CORES?
Adivinha qual eu escolhi?
De quebra, levei uns chumbinhos também.
beijo

Carol Montone disse...

Tati liinnnda
Adorei te reencontrar...
Obrigada pela visita "Sob o Céu" e pelos comentários sempre afetuosos...volta sempre que puder...eu adoro quando consigo tempo viajar em lugares obrigatórios na net com a casa desta Jeca
Adorei te ler...dá apra montar uma esquete de teatro ...que tal? Encontros e desencontros....que seria da vida sem essas possibilidades né?
beijão
Carol Montone

Maríita disse...

Está um espectáculo! Gosto destas mulheres meias indefesas mas incapazes de se deterem ante a aventura.

Beijocas

Anônimo disse...

Oi Tati!
Isso tá ficando booom, hein?!...
Adoro essa mulheres!!!
Beijos
Carolzinha

Rubina disse...

Delícia Tati. Os tugas em Natal vão morrer de ciúmes...lol...Acho que vão precisar de 700 episódios, para a continuação em Lisboa...lol