Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

E a Jeca nasceu...


Falar da Jeca é sempre muito gostoso, pois já vão aí quase 6 anos de blog, e mesmo que há alguns eu não dê conta de atualizar, não há coragem nenhuma de exterminá-lo.
A Jeca nasceu de uma extensão terapêutica...
Pra entender a Jeca, é importante conhecer um pouco da Tatiana... Pra quem não sabe, eu fui comissária de bordo por algum tempo, lá no passado, e vivia no eixo São Paulo, Nova York, Los Angeles e Tókio. Eu trabalhava em uma companhia japonesa, e vivia de maneira bem cosmopolita.
Meus anseios acadêmicos falaram mais alto, e em 2002 eu parei de voar e voltei a dar aulas.
Ainda na metrópole São Paulo, minha casa desde que nasci, conheci o maridão, que estava de mala prontas para assumir um emprego no interior. Quase roça, diga-se de passagem... Pelo menos era assim, pra mim, quando me mudei pra cá de mala e cuia, em 2005.
Agora, coloque-se no meu lugar: Recém casada, deixei pra trás o agito de SP, a casa da mãe, o emprego, os amigos e até de carro troquei. Fiquei totalmente sem referência nenhuma.
Meu primeiro ano aqui foi terrível. Sem conhecer vivalma na cidade, sem trabalho, e em uma cidade pequena, com pouca estrutura e hábitos um tanto diferentes dos meus. Lembro que em um dia de faxina (era o que me restava) eu vi a vassoura na lavanderia e caí em prantos. Corri pra São Paulo conversar com o professor que no ano seguinte se tornaria meu orientador no mestrado.

"Preciso de movimento. Uma vassoura me fez chorar, eu sou cosmopolita demais pra viver assim!!"

Resultado, voltei pra terapia, comecei meu mestrado e em 2006 comecei a dar aulas na escola onde estou até hoje.

Nesse ano de aclimatação, comecei a escrever sobre minha visão da cidade. Lá no começo da Jeca, o tema era único, a vida de uma pessoa URBANA em uma cidade do interior. Daí, Jeca Urbana.

O maravilhoso do blog, no entanto, foi que (além de conhecer pessoas especiais por aqui) pude, ao longo do tempo, perceber que fui invertendo a ordem do título... A jequice vem tomando conta, e cada vez mais me torno um ser híbrido, que para os paulistanos é caipira e para os daqui, urbana demais...

Inté!

Sábado, Dezembro 24, 2011

Para não falar de Natal...

Peço desculpas aos leitores que esperam um post natalino, com os costumeiros desejos, reflexões, etc., mas eu sou um pouco empapuçada desta temática que já permeia minha vida diária. Vou falar então, de outra coisa...

Acabei de acabar (perdoem-me, mais uma vez, agora pela expressão quase pleonástica) um livro que vinha me desafiando há algumas semanas: O Cemitério de Praga. Por que escrever sobre um livro, dentre tantos outros maravilhosos que passaram pela minha cabeceira em 2011? Talvez porque ele tenha me mostrado um sentimento antagônico que há tempos eu não vivia: amor-ódio, assim, juntos pelo hífen. Uma coisa só.

Já disse por aí antes que não estava apaixonada por ele. E não estava, mesmo. Foi árido, foi difícil e por vezes pensei em desistir dele. Mas algo me fazia seguir em frente, e ao fechar a última página, ssenti necessidade de registrar essa sensação, talvez para fechar em mim o famoso "gostei ou não gostei".

Seria loucura da minha parte dizer que o Umberto Eco fez um livro ruim. O livro é genial nos aspectos formais e da própria ideia do enredo. Fiquei impressionada com a erudição do autor, com a profundiade da pesquisa histórica e com a habilidade fora do normal de juntar as personagens verídicas em um texto ficcional. Gênio.
Amei a estrutura narrativa, o afastamento e criação de um narrador praticamente misturado ao autor e da personalidade típica na escrita dos outtros narradores. Preferi ler o Abade ao falsário, preferi o Abade ao narrador. De tirar o chapéu.

Fenomenal também é a capacidade de se criar um pensamento que naturalmente não seja o do autor. Eco é canônico ao se afastar tanto de seus protagonistas a ponto de mostrar seus pensamentos preconceituosos que hoje fariam dele um vilão. Quase um Dostoiévsky. Falar mal dos judeus e maçons da maneira como "Simonini" fala incomoda, remexe nossas enranhas e mostra que o livro não é para qyalquer um, mesmo. É necessário ter a consciência de que quem fala não é o autor. Ele apenas transforma em protagonista um típico antagonista.

E talvez justamente isso tenha sido meu terreno árido. Muita conspiração, muito ódio, muita preparação para o que Hitler fez no século XX.
Mas não vou falar do árido. Muita gente vai ler e formular sua própria relação com o livro. E essa é a magia do natal, oops, quer dizer, a magia da literatura, da Arte: a relação que criamos com o texto.
Esta foi a minha.

Inté!

Domingo, Dezembro 04, 2011

Sonho de desconsumo

Eu acabei de chegar do Shopping. Pois é, fui comprar uma blusa verde para passar o reveillon.  Durante anos passei de rosa, até que achei que o amor estava bem resolvido. Agora, quero saúde, então visto a família toda de verde.
TEM que ser verde. E TEM que ser nova... Sei lá por que, mas é assim que minha superstição capitalista funciona.

Enquanto eu lia este texto aqui, a blusinha me olhava, deitada ao meu lado na cama.  E ela me lembrava de um percurso que eu tenho percorrido nos últimos tempos, em uma tentativa de simplificar minha vida e meus valores...
Seria hipocrisia demais, da minha parte, dizer que eu tenho uma essência hippie que nega a cultura capitalista e que me "enjoo" de ver o consumismo ocidental... Me enjoo é de ver quanta coisa meu bolso impede meu bom gosto de realizar, isso sim... Entretanto, tenho me questionado muito sobre o quanto eu compro e pra que tanta coisa... Esse questionamento aconteceu com mais força depois da minha viagem à Itália, em junho.  Sempre fui fanática por viagens, mas tinha me esquecido do valor delas depois de uns anos parada.
Filhos, casa, papagaio, enfim, o estereótipo completo do "brazilian dream" me envolveu exatamente como a jornalista do texto supracitado descreveu.
Ao voltar de viagem, já reservei outra, que vou fazer em companhia das minhas cunhadas e de uma prima, e o simples ato da reserva me tirou o tesão de fazer compras. Achei meu high de novo... Achei a motivação de que preciso para viver com mais simplicidade... Ter uma viagem à vista me põe os pés no chão e me faz querer cortar cada vez mais. Pra quê tanta coisa no armário? Em que meu "estilo" me define? Prefiro me definir pelos lugares que visito, pelos pratos que experimento, pelas pontes que atravesso... De verdade.

Meu sonho de consumo é, no fim das contas, um sonho de "desconsumo", com o perdão do neologismo:  ter uma casa MENOR, em que as crianças também tomem as rédeas da manutenção para que dispensemos a figura cômoda, porém incômoda da empregada doméstica. Assim, poderemos, além de proporcionar aos nossos filhos mais oportunidades de viajar e de conhecer outras culturas, ensiná-los a ter uma visão diferente da vida, com maior consciência e mais afastados da banalidade do "ter" para "ser".

Não faça essa cara de "ah, tá... até parece"... Acho isso possível mesmo... O que nos falta é força de vontade de colocar em prática um movimento que vai contra a corrente de nossa cultura. É difícil, mas possível... Meus filhos já ajudam a secar a louça (de plástico, lógico), já colocam a roupa no cesto, já arrumam (do jeito deles) os brinquedos... E eu estou me policiando quando entro em Shopping... É um caminho longo, mas eu estou bem ansiosa por ele. Afinal, a "metáfora da jornada,. é a metáfora da vida"...

Inté!

Domingo, Novembro 06, 2011

Uma reacionária na USP...

Oi, eu me chamo Tatiana, e eu fui aluna da FFLCH da USP...
Oi Tatiana.....

Eu entrei pela primeira vez na FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) em 1995. Aquilo era um sonho, estava pronta para me aprofundar na minha amada literatura e de quebra sairia com a licenciatura de inglês também... Um sonho. Entretanto, os ares me chamaram com força além do esperado, a faculdade não era assim tão excepcional e eu acabei deixando pra trás.
Três anos depois voltei. Em 1998 decidi que inglês tinha sido um lindo caminho até ali (comecei a dar aulas de inglês com 14 anos...) mas que meu coração estava mesmo no seio da Flor do Lácio. Resolvida, sem sonhos idealizados, e já voando, comecei meu percurso ali. Preciso dizer, antes de mais nada, que eu AMEI os anos que passei na USP. Tive colegas maravilhosos, professores fantásticos que me levaram a um Mestrado fenomenal reodeada de discussões profundas. Morro de saudades. Adoraria ter tempo e motivação para fazer meu doutorado, mas não é para já...

Mas não foi pra louvar minha amada FFLCH que estou escrevendo agora. É para demosntrar minha vergonha com relação aos atos pseudo-revolucionários da parcela de estudantes que ainda se sente no direito de brincar de "ditadura"... Só falta eles irem até o Mackenzie birgar com os "burgueses" que representam a "direita" nacional.... Blagh!!! E digo isso com conhecimento de causa.

Conto aí de 1995 até 2008 13 anos de USP, entre graduação e mestrado. Não me lembro mais de quantas greves, ocupações e montes de blá blá blá que presenciei. Lógico que algumas coisas deveriam ser mesmo resolvidas, mas eu nunca fui partidária desse tipo de violência.
Me lembro bem de um figura, que em 1995 já parecia ter uns 40 anos. Moreno, bigodudo, nunca estava em sala de aula, mas vivia agitando Assembleias, manifestações, protestos. Lembro de ter sido IMPEDIDA de ir à aula pois a faculdade estaria FECHADA para discussões sobre eleição de DCE... JURO por todos os orixás e deuses pagãos e não pagãos que esse SER continuava agitando em 2008. Qual a função daquela criatura ali??? Não devia ser mais aluno, já teria sido jubilado há anos... E ali estava ele. Sempre de figurino guerrilheiro, pixando a cada mandato FORAS diversos. Vi pixado FORA FHC, vi pixado FORA LULA, vi pixado FORA PSTU e FORA ALUNOS QUE QUEREM ESTUDAR E SER BONS PROFESSORES. Ok, esse último não chegou a ser pixado, mas que foi pensado foi.

Sempre me senti uma pária ali. Nunca ia às tais Assembleias, cheias de manifestações políticas que dado nosso contexto, não deveriam paralizar aulas. Discutir, sim, lógico, a Universidade sempre foi um berço para as novas ideias, mas será que já não deveríamos ter aprendido com a História a ser mais eficazes em nossas lutas?

NUNCA, em 13 anos de FFLCH, vi uma manifestação que paralizasse a faculdade por melhor formação. NUNCA vi DCE nenhum lutando por mudar a grade da Licenciatura, que é ultrapassada e nos forma mal. JAMAIS fui chamad para refletir o sistema escolar brasileiro, ou proposta alguma que nos tornasse cientistas da educação, e não meros reprodutores de conhecimento. Podem me chamar eles de reacionária, ou de qualquer termo que eles usam enquanto fumam maconha no carro ao invés de assistir aulas.

Se ser reacionária é estar cansada de FALSA ideologia, sou reacionária... Se ser reacionária é não comprar esse papo de "ainda vivemos uma ditadura capitalisa", sim, guilty as charge. Assim mesmo, em inglês imperialista.

Gostaria de ver uma geração de alunos da FFLCH que me orgulhasse propondo alternativas novas à educação. Que tivesse na faculdade para ESTUDAR, REFLETIR e MUDAR efetivamente a nossa profissão. Eles, aqueles ali, que estão tomando cerveja em um prédio invadido, protestando contra uma parceria com a PM que só AJUDA a Cidade Universitária são os futuros professores do país. Os mesmos que serão sindicalizados a ponto de não aceitarem a melhoria necessária ao currículo das escolas. Os mesmos que vão fazer piquete contra a NECESSÀRIA meritocracia na educação. Os professores que querem, exigem ser valorizados, mas que não perdem uma licença, que não deixam de faltar quando bem entendem e que não querem ser exonerados por maus resultados. Alíás, são os futuros professores que NÃO querem nem ouvir falar de resultados... "E educação é empresa privada??? Resultados??""

SIIIIMMMMM

Resultados, Técnicas. Metodologia. Tudo o que a faculdade hoje não oferece. Então que tal eles mudarem o foco e cobrarem isso?
Quero ver pixado nos muros da FFLCH
"MANIFESTAÇÃO POR UMA EDUCAÇÃO SUECA",
"QUEREMOS AULAS DE METODOLOGIA EFICIENTES!".

Aí sim... Aí eu não preciso dessas sessões de desabafo, aí vou ter certeza de que estaremos em um caminho realmente democrático e maduro... Pois é, maduro....

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

Escola ideal...

Respondendo a um desafio da Mamatraca, resolvi escrever aqui um pouco sobre a tão difícil tarefa da escolha da escola...
Confesso que é bastante difícil escrever sobre isso  por alguns motivos bem óbvios:
Primeiro, sou professora. Professores tendem a sser muito críticos com relação a isso.
Segundo, meus filhos estudam na escola onde dou aulas, então rola todo um lance Apple + Facebook que pode complicar se eu quiser falar do que não acho bom. E eu costumo ver a rosa por trás dos espinhos, então foco sempre no que acho de bom.

Mas vá lá, digamos que eu fosse uma médica aterafada que não tivesse nenhum vínculo com escola alguma. O que a Dra. Tatiana Neurocirurgiã procuraria?

Bom antes de ser neurocirurgiã, a Dra. Tatiana estudou um pouco de pedagogia, e teve contato com duas filosofias que a encantaram. O construtivismo e mais radicalmente, a pedagogia Waldorf... Dentro dessas duas práticas, há algo que agrada bastante a nossa médica, que é o contato maior da criança com seu próprio aprendizado e com a natureza. Em uma escola assim, a aproximação da criança com elementos artísticos é feita de maneira MUITO pensada, desde artes plásticas até a musicalização. A Dra. acha que que a maneira construtivista de se pensar nas atividades, sem interferência escrita do professor, sem margens que comportem os alunos, sem enquadrar nada no processo de descoberta da criança seriam ideais para seus filhos.

Além disso, a escola em que a Dra. matricula seus filhos seria o mais natureba possível... brinquedos de madeira (ahh, se ela voltasse no tempo até tinha se formado profissional de escola Waldorf), festas ligadas à natureza e terra, muita terra. Pais participativos na comunidade escolar levam os ingredientes para que todos façam a granola que será servida no lanche. Biscoitos recheados não precisam ser proibidos, pois a comunidade da escola tem a mesma filosofia, e nem pensa em colocar na lancheira.

Mas eu não sou a Dra. Eu sou professora, e apesar dos problemas, gosto muito da escola onde meus filhos estão. Nasceram lá... Todos me viram grávida, acompanharam cada passo deles, e lá eles são família. Não há escolas construtivistas nem Wladorf na minha cidade. A escola ideal é a minha. É onde meus filhos entram na diretoria com a maior cara de pau para roubar biscoito. É onde as professoras os tratam com carinho e dão o máximo de si para proporcionarem as atividades mais bacanas para as crianças, até se fantasiando de bicho pra fazer teatro. É o lugar que me dá confiança total para que sejam tratados como crianças devem ser tratadas, com respeito e carinho. E para mim, uma grande vantagem que muitas mães sonham em ter: trabalhar no mesmo lugar em que meus filhos crescem. Vê-los a cada intervalo, ter em suas professoras colegas de trabalho e estar presente nos momentos mais importantes não tem preço.

Terça-feira, Novembro 01, 2011

Saudades...

Escrever, para mim, é um dos atos mais catárticos que tenho disponíveis para elaborar minha visão do mundo. Lendo também me equilibro, mas escrevendo eu me acho.
Fico por vezes em frente à tela em branco visualizando as palavras se formarem, mas nos últimos tempos não dou conta da quantidade dantesca de sensações e ideias que precisam ser acomodadas aqui. Sempre digo que sinto saudades da Jeca. E sinto mesmo. Sinto por que aqui a Tatiana etérea encontra o eco necessário para que a Tatiana de carne e osso continue caminhando. Por vezes releio a série que fiz com o Capitão-mor (blog já finalizado e contato infelizmente perdido) e suspiro melancolicamente relembrando as tardes que passava inserida de cabeça na blogsfera...
Agora os temas me vêm e me fogem. As letras se confundem com os gritos das crianças que me chamam a cada minuto.
Me lembro de uma crônica do Fernando Sabino em que ele começa refletindo sobre sua falta de assunto. Em seguida, entra uma família simples que comemora em uma confeitaria o aniversário da pequena filha com uma fatia de bolo comprada no balcão. Uma cena tão singela, que tirou o escritor do marasmo. Uma cena tão singela, que gerou uma crônica sublime...
Escrevo aqui, hoje, para mim mesma. Para me fazer a promessa de não me abandonar, de não deixar que o pó tome conta desse canto. Aos poucos ele continua capengando, mas vivo.
E viva continua a Jeca... Step by step, letra por letra...

Sexta-feira, Outubro 07, 2011

Juliana

Tudo começou com um desabafo. Juliana procurou sua professora e disse que nada em sua vida doía mais que amar alguém mas não existir em seu mundo. Juliana tinha 11 anos.

Aqueles olhos verdes marejados por uma dor sincera e comovente fizeram a professora suspirar. Sim, ela se lembrava de quando tinha 11 anos e nada mais parecia doer que o pouco caso do amor. Com um sorriso de conforto, passou as mãos pelos cabelos loiros da aluna:

"Sei que doi, querida. É horrível se sentir rejeitada. Mas sabe? Eu mal me lembro dos meninos que me fizeram chorar. E por cada um deles eu chorei como se fosse o único da face da Terra. Você é linda, inteligente e está se mostrando bastante romântica. Isso é bom. Logo mais, vai se apaixonar por um menino que também será apaixonado por você. Não se preocupe."

Juliana até entendeu, afinal, era uma garota esperta, mas pensou que a professora não havia sentido exatamente o que ela sentia. Não era possível que alguém que amasse tanto um dia mal se lembrasse da pessoa amada...

Suas manhãs eram repletas de ansiedade. Escolhia seu melhor brinco e penteava seus cabelos dourados com a esperança nova de que naquele dia ele a notaria. Ao entrar na ssala já o via sentado envolto pelos amigos. Meninos dessa idade andam em bandos, pensava ela.

"Talvez ele tenha até medo de mim."

Suspirava e recebia como um bálsamo o olhar de bom dia que ele lhe dirigia. Mas logo batia aquela dor que Juliana compartilhara com sua professora, pois o objeto do carinho dele entrava na sala.

A manhã passava assim. A cada referência da palavra amor os colegas a olhavam, conhecedores de sua paixão. Ele, sem saber como lidar com tanto sentimento dirigido a si, olhava para o caderno encabulado, fingindo não entender nada.

Como é delicado aprender a amar e a ser amado...

No início do ano seguinte, seu galã mudou de escola. Outras paixões vieram, mas ela sempre se lembrava do sorriso encantador dele. E à distância, parecia ainda mais bonito. Por anos, nenhum menino foi igual...

Quinze anos se passaram. A escola promoveu uma festa junina que reuniu ex alunos, felizes em visitar professores e reencontrar amigos. Ninguém sabia de Juliana.

"Saiu da cidade, ouvi dizer"
"É, acho que estudou Cinema na USP, não foi?"
"Não, parece que morou fora, Paris, ouvi dizer"

Álvaro estava encostado com na barraca de quentão, rindo dos velhos tempos com os mesmos meninos que o rodeavam no 6o ano. Ainda se viam, jogavam futebol aos sábados. Vantagens de cidade pequena. Falavam dos cacoetes do professor de matemática quando viram uma mulher deslumbrante entrar na quadra, de mãos dadas com um rapaz. Aprumaram-se à medida que ela se aproximou. A loira usava um cachecol violeta que fazia seus olhos verdes saltarem do rosto. Andava com tamanha segurança que todos ficaram sem ar.

Juliana já não parecia fazer parte dali. Após anos estudando sociologia na França estava de volta à cidade, para ver a mãe. Morava agora em São Paulo, onde fazia doutorado e dirigia uma ONG.

Álvaro esboçou mentalmente algumas palavras que diria a ela, ficou ansioso e derrubou o copo de quentão que apoiava na barraca. Juliana, ainda atrelada ao namorado espanhol que a seguiu até o Brasil, sentiu que a mão suava. Olhou para Álvaro e viu o menino de 11 anos. Sentiu que os ombros baixaram, mais leves, à visão de um rapaz comum, que nada lhe dizia. A lembrança valia mais. Parou no meio do caminho, e ouviu uns gritos agudos de moças, que vinham pulando em sua direção. Sorriu com saudades daquelas amigas, e virou o corpo para elas. Após abraços, apresentações e comentários, foram em direção à fogueira.

Juliana fez menção de voltar atrás. Apenas olhou por cima do ombro, cumprimentando Álvaro com um aceno.

O que via à frente era bem mais interessante...

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

A mãe do metaleiro

João sempre foi rock and roll. Desde pequeno mantinha os cachos grandes, pra poder bater a cabeça enquanto ouvia o cd de cantigas que a mãe lhe comprava.
Beth adorava as expressões radicais do filho, ela mesma um pouco radical em sua adoração à arte. Artista Plástica, era a mãe perfeita para liberar as ânsias metaleiras do pequeno João.

Logo começaram os shows. Morando no interior, Beth foi permitindo aos poucos as saídas do filho adolescente. Ela mesma começou levando a São Paulo. Depois, ela mesma fretava a van, e depois ela mesma arrumava os grupos que o levariam às pistas de rock. Sempre o deixava voar, mas ficava à sua espera, e o via chegar, por vezes encharcado de chuva, com um sorriso no rosto, animada pela animação dele.

Até que um dia João comunicou que o passo era mais longo.

"Rock in Rio, mãe. Eu vou."

Sem "ok?" no final da frase. Sem "tá?". Um seco ponto final avisava Beth que chegara a hora do voo solo.
Sentiu a boca seca, mas manteve o semblante sereno que passou a segurança de que João precisava. Sem voz, não fez perguntas.

Na tarde em que o ônibus sairia da Praça da Matriz, Beth perguntou o que ele queria levar de lanche.

"Nada, mãe, eu como antes de sair. Não se preocupa!"

Beth se preocupou. Foi ao mercado e encheu a mochila do filho de bolos "Ana Maria" e caixinhas de Toddynhos, que ele só veria quando batesse a fome. Ao sair de casa, ofereceu-lhe uma manta.

"Que manta, mãe, pelamordedeus, manta??? Eu vou num grupo que nem conheço, só metaleiro, e eu de mantinha?"

"Filho, de madrugada faz frio, leva?..."

"Não."

Ponto final. Aquele, seco, de antes.

Aproximaram-se da praça e avistaram os fãs descoladamente vestidos de preto, cabeludos, com mochilas para a aventura e nenhuma manta nas mãos... João pediu para descer ali mesmo. Não deixou de dar um rápido beijo de despedida em Beth. Era um bom menino.

"Vai, mãe, pode ir. Vai demorar um pouco para sair. Amanhã à noite eu volto. Tchau."

Beth, lógico, não foi. Deu a volta na praça e estacionou em um ponto de onde via o ônibus. Esperou seu pequeno João entrar e só depois partiu.

João só encontrou um lugar vago no ônibus. Sentou-se ao lado de um metaleiro mais velho, grisalho, gordo, barbado. Ainda mantinha os cabelos longos, mesmo que na frente a testa anunciasse que por ali já houvera mais tufos. Olharam-se e com a cumplicidade de dois homens que passarão a noite dormindo lado a lado, cumprimentaram-se com um breve e sisudo balançar de cabeças. Sem palavras. João sentiu frio nas pernas...

No meio da noite, João teve fome. Acordou com o roncar do estômago. Sentiu uma leve esperança de que acharia um resto de biscoito perdido na mochila e intuitivamente a abriu. Sorriu, cheio de ternura pela mãe.

Olhou em volta e abriu silenciosamente o pacote que trazia uma menininha loira comendo um bolinho de chocolate deliciosamente recheado... Em seguida, pegou o leitinho, mas ao rasgar o plástico do canudo, ouviu uma risada de escárnio de seu vizinho.

"Toddynho do Toy Story???"

Tremeu. Viu que a caixinha tinha um enorme Buzz Lightyear quase gritando "Ao infinito... E Aléééém!". Ainda sem respirar, já pensando que seria largado no acostamento, ouviu o companheiro dizer, mostrando-lhe uma outra caixinha, parecida:

"O meu é do Shrek... Minha véia não me deixa sair sem lanche. Boa, a minha coroa."

Riu e terminou seu leite. Seu novo amiguinho também ria, enquanto abria um papel alumínio com bisnaguinhas de sanduíche de atum.

No dia seguinte, voltou ao mesmo lugar na praça, onde viu que o jornal da cidade tirava fotos do grupo de roqueiros que tinha ido ao Rock in Rio. Atrás, Beth acenava de dentro do carro, receosa de aproximar-se e fazer João passar vergonha. Ele atravessou a rua, entrou no carro e lhe beijou.

"Como foi, filho? Deu tudo certo?"

"Deu, mãe. Deu tudo certo..."

Com o carro em movimento, viu seu companheiro de banco atravessar a rua e dar a mochila a uma senhora de vestido florido e chinelas. Viu que ela o beijava enquanto arrumava seu rabo de cavalo amassado da viagem.

Apoiou a cabeça no encosto e disse:

"Mãe, na próxima você me compra uma manta pequena? Das que cabem na mochila, sabe? Nunca imaginei que no Rio de Janeiro ia fazer frio..."



Dedicado a uma amiga maravilhosa que me conta os causos mais deliciosos... Baseado em fatos reais...

Domingo, Setembro 18, 2011

O bailinho

Ouvindo uma música postada por minha querida Rubina, me lembrei de uma das épocas mais mágicas e angustiantes de minha vida. A época dos bailinhos...

Mágica, claro, pela descoberta do universo chamado "meninos", que, (como creio acontecer em toda escola) era liderada sempre por um galã específico que arrasava corações de levas de meninas. No meu caso era assim. Um lindo garoto repetente (os mais velhos são sempre os mais interessantes, e repetente ainda melhor, vem com toda uma pose rebelde...) me fez sofrer muito!

E daí portanto o segundo adjetivo: angustiante. Era angustiante ir aos bailinhos sabendo que o Fulano Sicrano (as iniciais são mera coincidência. Ou não) estaria lá. E pior. Estaria lá para mostrar o prazer que tinha em me humilhar. Sim, ele sabia da minha paixonite, e brincava com ela. Até porque, para todo galã teen há uma "musa do ginasião" que no caso era loira, linda e legal. Não me esqueço da brincadeira tosca que fazíamos, contrariando qualquer defesa da dignidade feminina, em que as meninas ficavam sentadas com as palmas das mãos para cima. Os meninos vinham e batiam na mão da menina com quem queriam dançar.

A cena me aparece nítida até hoje.... Eu, ao lado da tal Joana Penteado (novamente, iniciais puramente coincidentes. Ou não) ambas de palmas para cima. Fulano Sicrano se aproxima, sorri para mim. Meu coração dispara. Ele ameaça me chamar, e ao aproximar a mão da minha, bate na mão dela...... DELA.....

Eu estava de saia branca rodada, camisa polo amarela e bota branca, daquelas que usávamos nos anos 80, com laço, tipo bota Xuxa. Eu estava uma GATA. Juro... Meu cabelo repicado era última moda. E ele escolheu ELA.... (para fins de confessionário, eu bem que me vingava, passando trotes para ele de madrugada. #prontofalei)

A música??? Como esquecer!... Até hoje os acordes iniciais me levam para 1989, praquele salão de festas em um prédio no Brooklin (mais precisamente na esquina da Califórnia com a Padre Antonio José dos Santos) e pra tantos outros salões de prédios de São Paulo em que essa música marcou minhas alegrias e minhas fossas... Ela segue abaixo, e ainda hoje me emociono ao ouví-la.

Nossos bailinhos eram bons demais, mesmo com toda a ansiedade dos primeiros amores. Ou melhor, eram tão bons JUSTAMENTE por causa da ansiedade dos primeiros amores.

E só pra constar, em outro bailinho, em um canto escuro, com a mesma saia e bota (não, nós não tínhamos taaaantas roupas como as adolescentes hoje em dia têm) eu ganhei um beijo do Fulano Sicrano.

E um ano depois, do irmão dele. Só pra dar o troco!!!

E com vocês, Don´t dream, it´s over, diretamente do túnel do tempo...


Sexta-feira, Setembro 16, 2011

O lado ruim

Nem tudo são flores, não é?... Ok, sei que ninguém JAMAIS disse que vida de professor era baseada em felicidades eternas e retribuição constante, mas eu até que sou bem feliz no que faço. Geralmente tenho ótimo relacionamento com os alunos, falo a linguagem deles e como AMO a matéria que leciono, parece que minhas aulas são bacaninhas. Mas tem UMA coisa que me tira do sério...

Não é papo em aula.
Não é o eventual comentário negativo em redes sociais.
Não é o eventual aluno dorminhoco em sala. (coitados, eu até falo mais baixo...)

É a falta de vontade ABSOLUTA que alguns (leia-se MUITOS) alunos têm de ler... A simples menção do próximo livro bimestral causa suspiros profundos de preguiça crônica, que são a maior causa do meu desânimo.

Na minha época (ai, que frase envelhecedora...) ninguém tinha que me mandar ler. Eu simplesmente lia. Lia tudo que caísse em minhas mãos, lia bula de remédio, lia Seleções da empregada, lia "O pacto secreto de Hitler e Stalin", (livro que me deixou marcas profundas pois fiz a burrice de emprestar para a então professora de História e a fulana jamais me devolveu) lia manual de video cassete, de walk man, de fax... (e eu que achava que a frase lá de cima que ia me envelhecer...)

A vontade de se relacionar com algo misterioso parece que sumiu nesta geração. Claro que há excessões, mas mais parece regra. Falta sede de conhecimento, sede de aprofundamento.

Eu me questiono muito sobre a prática da leitura obrigatória na escola. Acredito que numa escola ideal (inserida em um país ideal cuja cultura popular também seria ideal) não haveria obrigatoriedade para se ler. O professor indicaria o livro e discutiria em um sarau com todos, sem notas, sem perguntas, sem cobrança. A única cobrança é que o aluno não falte ao sarau. Tipo clube do livro.

Mas faça a seguinte experiência: após fazer a chamada, olhe para a sala e diga: 
"Vou indicar o livro do bimestre, e vai ler apenas quem quiser."

Após um breve momento de vácuo, em que você nota nas pupilas o processamento da informação, você verá as caras de alegria contaminarem o ar.

"É opcional?", "Não PRECISO ler?"

Acabou sua atividade. Tenha certeza que raros serão os alunos que se embrenharão nas letras.

A nota ainda é o maior motivador. E geralmente, pela minha experiência, a própria leitura é feita às pressas com o único intuito de acabar até o dia da prova.

Acabou a fruição, acabou prazer da entrega, acabou o luto pelo livro acabado.
Fico pensando em um adolescente que estou conhecendo. Um tal de Arkádi que um amigo amado chamado Dostoiévski me apresentou, no livro apropriadamente chamado O Adolescente. O menino vive uma crise existencial, repleto de conflitos, buscas de afirmação paterna e questionamentos. Em muito Arkádi se parece com nossos jovens. Ele tem apenas um "algo a mais", que talvez fizesse dele hoje um alien: ele tem um ideal. Ele ambiciona crescer.

Ele tem sede.

Eu tenho medo... Muito medo...

Inté