quarta-feira, novembro 14, 2007

Blogsérie: O Funeral, capítulo final

Acabou tudo muito tarde. Sílvia se esquecera de que certos eventos páram a cidade, que na falta de lazer, usam até os funerais para se encontrar e bater papo. Não suportava mais, também, os discursos que sua irmã pedira ao pastor. Sentia-se enganada, suja, vendo sua mãe ali, obrigada a uma bênção que não era dela.

Quando finalmente D. Lourdes descansou, rumaram para casa, juntos, caminhando pelas ruas de terra da cidade. Paula ia à frente, buscando as mãos de Nelson. Sílvia observava os sobrinhos, que eram totais desconhecidos, apesar de traços familiares. Marta parecia aliviada, quase feliz. Será que se sentia vitoriosa, por ter imposto, no último momento, sua fé à mãe?

Viu o ônibus, quis entrar nele. Tinha feito o que precisava, não queria mais entrar pelo portão de ferro daquela casa. Casa de ninguém.

Jantaram em silêncio, sem fome, à beira da tensão.

Sílvia foi a última a se levantar, e secou a louça que a sobrinha lavara.

Cansada de todos, foi para seu quarto, de onde esperava sair direto para São Paulo. Mal fechou a porta e ouviu alguém bater.

-Posso entrar?

-Pode, Paula, achei que você tinha desistido de conversar.

-É, eu pensei nisso. Mas o que você me disse hoje antes do velório ficou na minha cabeça, e não quero deixar isso assim. Você acha mesmo que eu queria ter a sua vida?
Paula não parecia tão ameaçadora quanto antes.

-Acho, desculpe mas acho. É a única coisa que posso pensar pela maneira como você me trata. Apesar de que você não é lá muito melhor com a Marta.

-A Marta é uma tola, eu tenho é pena dela.

-Pena? A voz de Marta apareceu por trás das duas. – A porta estava aberta, ia descer para beber água e ouvi vocês. Pena, Paula? Por que eu precisaria de sua pena, se tenho o apoio Dele?...
Paula falou rispidamente:

-Dele? Dele, quem, Marta???? Quero só ver o que você vai fazer agora, que não tem mais a mãe como desculpa para não viver! Nem freira pode ser, por que na sua igreja não tem isso. E vai ficar sentada esperando um homem de bem, que aceite você com quase 40 anos, ainda virgem. Pena sim, por que isso nunca vai acontecer.
Marta ficou em silêncio, e só pôde responder depois de engolir o nó de choro.

-Olha pra você, Paula. Tem tudo isso que você acha que eu deveria ter e é infeliz. Seus filhos estão crescendo, cada vez mais afastados de você; sua beleza já foi embora há muito tempo e se ficar sozinha seus antigos casos não iam te querer nem no escuro. E a chance de você ficar mesmo sozinha é grande, já que seu marido ama sua irmã mais velha! Pois é, irmã, acho bom você engolir sua pena, por que daqui a uns 20 anos, vamos estar as duas, sentadas nessa mesma varanda onde a mãe morreu, tricotando para ninguém! Juntas e sozinhas!

Sílvia sentiu a espinha gelar, pois sabia que a conversa ia agora para o assunto que menos queria discutir.

Tentou consertar antes de ser confrontada.
-Marta, não é verdade... Eu fui colega do Nelson há muitos anos, eu mal lembrava dele.

-Mas ele lembrava, e pelo que vi hoje no velório, muito bem, murmurou Paula, enquanto fingia dobrar a colcha na cabeceira da cama.

Ficaram as três em silêncio, por algum tempo. Marta olhava pela janela, talvez na tentativa de vislumbrar algum sinal Dele que a provasse certa.
Paula mordia o lábio inferior e tinha uma sobrancelha levantada, enquanto se ocupava com um pedaço de cutícula. Tivera sempre mãos nervosas.
Sílvia as observava, enquanto abraçava o travesseiro, quando teve a consciência plena de que aquelas mulheres ali ao seu lado eram estranhas com quem estava forçando laços inexistentes. Ouviu um copo se quebrar na cozinha.

-Talvez você tenha razão, Sílvia, talvez eu realmente gostaria de ter tido a coragem de ir embora daqui. Mas eu não invejo você. Não queria a SUA vida. Queria simplesmente outra vida...

-Você tem tempo, Paula. Não precisa largar tudo, seus filhos, mas pode mudar o rumo, ajustar a vela...

-E você poderia ter um pouco mais de fé, Sílvia. Tem essa pose toda de fortona, de independente, mas tenho certeza de que se sente frágil, desamparada.- Marta interveio, sem tirar os olhos das nuvens noturnas. Já era tão tarde...

Sílvia teve vontade de responder, de dizer que sua fragilidade não era em nada mística, que não precisava do oculto, ou “dele” para se sentir protegida. Quis dizer que vivia na realidade, e que na realidade, o homem que a guiava na igreja dela estava era bem rico, enquanto ela contava trocado pro pão. Quis berrar que, como Paula, também tinha pena da irmã, que a achava ignorante e cordeira, e que ela cheirava a mofo. Disse apenas:

-Pode ser.

Depois de mais um buraco silencioso, Sílvia olhou o relógio e se angustiou com aquela conversa circular.

-Por que não continuamos amanhã? Estou super cansada e pra ser bem sincera, acho que esse pronto socorro de feridas não está resolvendo nada. Vivemos em três mundos diferentes, e se nem com mamãe viva nos aproximamos, sem ela é praticamente impossível.

-Então pra que continuar a conversa? Vou ter que olhar o Nelson todos os dias e me lembrar de você... É o que me sobra.

-Isso é com você, Paula. Eu não posso te ajudar em nada. É sua escolha.

Marta voltou o rosto para o quarto, enquanto se dirigia à porta:

-Amanhã nos vemos?

Paula já estava fora.

-Talvez. Acho que saio bem cedo.

-Boa viagem, então. Que Ele te acompanhe.

-Obrigada, Marta. Se cuida.

Sorriram aquele sorriso em que o lábio inferior simplesmente empurra o superior, sorriso inventado para essas situações, em que nem se ama, nem se odeia.

Sílvia ficou sozinha, mais uma vez. Em meia hora abriria a porta do carro, e sumiria na noite. Aliviada, resolvida.
Para nunca mais.

5 comentários:

Capitão-Mor disse...

Um belo final!!!! A próxima vai ser uma mano a mano Jeca vs Capitão-Mor??? :)
Depois comunico-lhe algumas ideias que estou tendo...
Bjo

Rubina disse...

Olha o Capitão a falar brasileiro..."que estou tendo"...lol...Óptimo final Tati, um final que brinda a vida real!

mc disse...

Que triste... mas não podia esperar um final feliz para essas irmãs. Me deu vontade de dar um chacoalhão em todo mundo!!

MH disse...

Adorei a série!
Beijo

Nana disse...

Tava há algum tempo longe da internet, mas hj deu um tempinho de entrar aqui e amei encontrar uma nova blogsérie! E o melhor foi que pude ler todos os capítulos num dia só. Adorei.
Reativei o meu blogue, passa lá pra ver.
Beijo