sexta-feira, outubro 19, 2007

Blogsérie: O Funeral, capítulo III

Foto: olhares.com

- Sim, sou eu... O senhor é... Padre Luis? Nossa, é o senhor mesmo? Quanto tempo!

-Tempo mesmo... O quê, uns 20 anos?

-Sim, fui embora há quase 20 anos... Mas o senhor tem muito boa memória, não? Reconheceu-me assim, praticamente de costas...

-Claro, quem se esquece da roupa rasgada? Bons tempos aqueles, viu? Sua tia Berta quase morreu de tristeza, mas a Igreja vivia cheia, as crianças gostavam de ser coroinhas e os adultos disputavam lugares na minha missa... Hoje... Pareço o bazar do seu Agripino, tenho que ficar de olho na concorrência.

Sílvia já se sentava ao lado daquele senhor que um dia lhe expulsara aos berros da aula de catecismo. Parecia agora tão inocente, ali sentado sozinho embaixo do manacá da praça. "Concorrência? Então a Matriz não é mais a única?"
-Não, a Matriz é e sempre será a Matriz! Outras igrejas católicas não há, mas perdi muitos fiéis para os galpões que abriram na cidade. Até o Jorge do artesanato abriu uma sala dessas. Eles colocam umas cadeiras de plástico, pintam a fachada com algum nome bonito e puft, mais 20 que se vão. Até pensei em ir disfarçado a uma delas para ver o que os atrai tanto, mas iriam me reconhecer. Sabe, Silvinha, lá no Santa Clara, a rua principal tem quatro dessas igrejas seguidas. Nem imagino o que fazem para atrair gente. O Deus não é igual?

-Não sei, padre Luis, não sei. Quando saí daqui Ele também ficou... Mas certamente Marta ainda lhe é fiel, não? Não imagino minha irmã debandando para outro lugar...

-Marta? Silvinha, há quanto tempo você não vê sua irmã? Já faz muitos anos que ela se juntou à Assembléia do seu Vicente. Minha querida, você vai se surpreender com suas irmãs, se ainda não as viu... Não quer entrar um pouco e fazer uma oração? Vai precisar.

-Não sei mais fazer isso, obrigada. Já vou indo, vou caminhando até a casa da minha mãe, quero rever a cidade. Até mais, padre Luis. Fique bem, sim?...

Sílvia deu a volta na praça e sorriu ao ver o antigo coreto. Atrás dele havia uma guarita, e foi nela que o Tonico lhe beijara pela primeira vez. Tinha onze anos, e voltavam da Festa de São João na Paróquia. Era tão lindo, o Tonico. Alto, moreno de olhos cor de mel, era do time de futebol de salão da cidade vizinha. O que seria dele?...

Na rua de trás, encontrou Seu Agripino, de quem comprava balas de goma depois da escola. Ele abriu-lhe um largo sorriso e em seguida, abraçou-lhe em consolo pela perda da mãe.

-A Lourdes vai fazer falta, era uma mulher muito boa. Gostava muito de você, viu? Contava com muito orgulho que tinha uma filha jornalista em São Paulo. Falava com o peito estufado e os olhos cheios de lágrimas. Só dizia que queria que você se casasse logo, que já estava velha para ter filhos... Mas vejo que continua bonitona, hein? Você é a mais nova, não?

-Não, sou a mais velha, seu Agripino...

Continuou sua via crucis com a garganta embotada. Sua mãe jamais lhe dissera nada sobre orgulho, e ela desconfiava que D. Lourdes nem sabia bem qual sua profissão.

Logo chegou à rua de sua casa de infância. Relembrou o cheiro do galinheiro da casa de D. Iara, do barro molhado da rua ainda sem asfalto e dos jasmins do vizinho da frente. Antes que se desse conta estava com a mão no portão de madeira do quintal de casa. Parou.

Ouviu os sons de dentro, talheres se batendo na pia, o sabiá preso na varanda e o som abafado de uma voz masculina no rádio. Devia ser Marta. Logo escutou a irmã, e seu coração pareceu parar no peito. Estava petrificada na calçada, quando ouviu:

-Você vai entrar para ver minha vó ou veio concertar o portão?

-Hã? Ah, não, vou entrar...

-Você deve ser minha tia, né? Minha mãe disse que duvidava que viesse. Entra, elas vão começar a arrumar as coias. Ah, eu sou o Rodrigo.

Sílvia andava passos atrás daquele rapaz comprido que lembrava seu pai. Ele abriu a porta berrando:

-Tia Marta, olha quem está aqui! Mãe! ô, mãe, você disse que que ela não vinha, né? Ela chegou!

Sílvia ficou à porta, sem graça, estranha naquela casa tão sua. Viu o sofá de couro vermelho ainda com o retalho do rasgo que Paula fez ao brincarem de desfile. A mesa de centro não era mais de vidro, mas uma pequena tora de madeira, mal ajambrada e feia.

-A de vidro quebrou. O Lucas da Paula caiu em cima. Levou 10 pontos na testa, e mamãe arrumou esta aí, provisória.

Era Marta, que vinha da cozinha, e segurava a cortina de contas que a separava da sala. Sílvia teve vontade de abraçá-la, mas conteve-se. Não a via há tanto tempo, mal a reconhecia. Tentou achar naquela moça envelhecida, de cabelos intermináveis e sem cor a menina de cachos negros que era uma graça rezando antes de dormir. Chorou...

-É, também sentimos falta da mamãe, disse Marta se aproximando e abraçando a forasteira.

-É, ...mamãe.... Pois é, desculpe, não resisti, respondeu abraçando a irmã de volta. Marta não parecia tão assustadora quanto disse o padre. Até lhe sorriu.

-Ah, chegou a celebridade! Regina, vai ajudar seu irmão, ele não consegue se limpar sozinho, berrou do alto da escada, Paula. Voltou o olhar para a irmã recém chegada. Sílvia ouviu a resposta da sobrinha:

-Ahhhhhh, manhê, ele já tem 7 anos!!!! Vai se limpar sozinho, eu estou varrendo o quarto.

Paula suspirou e correu escada acima.
Sílvia também suspirou. Ganhara alguns minutos.
De repente, a porta se abriu, e Sílvia, ainda absorta nos detalhes de sua casa, ouviu Marta cumprimentar:

-Oi Nelson, a Paula está lá em cima. Conseguiu reservar o velório?

Sílvia se voltou, enquanto ouvia os passos de Paula descendo a escada. Não acreditou no que viu. Sua vista ficou embaçada e quase não foi capaz de dizer:

-Nelson?
O homem ainda segurava a maçaneta, e também visivelmente chocado, só consegiu responder:

-Sílvia?

Continua semana que vem.....


Inté!!

4 comentários:

Capitão-Mor disse...

Não sei porquê, mas a certo ponto do texto lembrei-me da peça teatral "A Partilha", creio que da autoria de Miguel Falabella que chegou a ter adaptação cinematográfica.
Bom fim de semana!

Rubina disse...

Quem e o Nelson? Beijo

Carol Piovesana disse...

Puts!!! Cada vez mais empolgante!!!
Sensacional! Não vejo a hora do próximo episódio!!!
beijos!

MH disse...

A pior parte é esperar!!!
beijo