sexta-feira, janeiro 08, 2016

A meia crise da meia idade

A tela está em aberto há muito tempo. Nada sai. Se eu fosse uma grande escritora, diria que estou em “bloqueio criativo”, mas não sou nada grande. O que estou vivendo, é a pouco glamourosa crise da meia idade... Assim, seca, dura, cheia de pontas de reflexão e muitas lágrimas...

E “pouco glamourosa” porque toda crise da meia idade tem um quê de glamour... A gente alcança os 40 sabendo que pra tudo temos que ter classe. Até pra crise.
E é minha primeira crise existencial poderosa, então é melhor que seja, pelo menos elegante.

Não me ajudou muito o fato de estar fazendo 40 em meio a uma mudança gigante na minha vida. Na vida da minha família. Tudo de cabeça pra baixo, exatamente no lugar onde queríamos e do jeito que queríamos. Paradoxal, não? (Não disse que tem uma ponta de glamour?) Estar longe de pessoas que amo, perceber que fazer uma rede de amigos leva tempo, e que minha carreira como eu a conhecia acabou é pimenta na ferida. Paralisei. A escrita faz parte da primeira fase da minha vida. Será que ela também acabou? Será que perdi a mão?  

Se você cansa rápido de clichês, pode parar de ler. Fica chato. Fica repetitivo. Mas eu preciso tocar nesse tópico. Infelizmente a rotina é clichê. 
Exclusividade, só bungalow no Tahiti.

Eu lembro bem do meu pai dizendo pra mim que eu era super inteligente e que ia ser grande. Ia fazer grandes coisas. Muito amor envolvido nessas expectativas. Muito mesmo, não tenho dúvida. Era nessa expectativa que eu sentia o calor dele. 

“Nunca dependa de marido nenhum, tenha a sua carreira”, dizia o homem que proibia a esposa de trabalhar...

De uma maneira torta, eu acreditava. Precisava acreditar. Se era meu pai dizendo, devia ser verdade.
Eu busquei essa grandeza por anos. E até acho que cheguei perto em alguns momentos. 
Olho com muito carinho pro que fiz em sala de aula, o que fiz no pouco tempo de fotografia. 
O problema é que essa busca era pra atingir a expectativa dele, não minha. Então durava pouco. (tá aí, Francisco, a resposta pra tanta energia gasta e não concluída. Quanta terapia pra chegar nisso, né?) 

E de repente, tudo que ele pediu pra eu não fazer aconteceu. Sem carreira, me dedicando 100% à família. É como a criança que ouve pra não colocar o dedo na tomada e, pum, enfia a mão inteira de uma vez. Eu olho pra trás e só consigo ver a frustração de expectativas. 

“Fui grande nada, pai... Desculpa aí...”

Só que se fosse assim claro e bem resolvido seria fácil. Eu teria tomado uma por ele e pronto. Tudo resolvido. Mas não é. Dói porque essa visão dele se tornou minha. (Clichê, eu avisei...) E agora? 
Quem sou eu? (Francisco, essa ainda não deu pra descobrir, viu? Preciso de mais das nossas queridas e doloridas sessões...)

Eu não cresci ouvindo que ser mãe é grandioso. Nunca ouvi ninguém me dizer que a felicidade estaria em ser quem eu sou, por si só. Sem ter que alcançar nada, sem ter que fazer nada. 
Apenas sendo eu. 
(Tá o Paulo Coelho disse isso algumas vezes, mas eu detesto Paulo Coelho, então, tipo, ele não pode estar certo, né?)

E é com isso que eu preciso apagar as 40 velas do meu bolo. “Quem sou eu?” (ah, Tatiana, você realmente perdeu a mão! Sério?? “Quem sou eu?” That’s all you can come up with?) “O que vai ser daqui pra frente?”, “De onde eu vou alimentar minha felicidade?”

E quando eu percebi que estas são minhas perguntas pras próximas 4 décadas (espero que eu responda em bem menos que isso. Só assim estendo essa bagaça e vivo mais umas 5 décadas...) entrei em pânico.

“Ué, a felicidade não está no carinho dos meus alunos?”
-Béééémmmm
“Não está no elogio que fazem das minhas fotos?”
-Béééémmmm
“Não está no olhar de admiração dos outros?”
-Béééémmmm

Então peraí que eu vou ali rever minha vida toda, chorar litros e já volto.

Corta pra hoje. 8 de janeiro de 2016. Pula as “saídas da casinha” dos últimos tempos. (Como bem disse uma amiga que também está passando pela crise dos 40! Valeu, querida, saber que não sou a única ajuda muito a passar por isso. E voltar pra casinha...) Pula o ombro do meu marido que me escuta, escuta e escuta.

Corta pra hoje. 8 de janeiro de 2016.

Nova York.

Meu presente de aniversário não veio embrulhado em caixinha nenhuma. Veio na forma que eu mais amo: passagem e reserva de hotel. E pra uma das cidades que mais marcou minha vida. Uma cidade onde eu aprendi, lá nos meus 20 anos, a ser livre. Hoje eu sei disso. Na época não sabia de nada.
Estar em NY nesse momento, com meu marido e meus filhos, me ensina a ser livre de novo. Mas de uma maneira totalmente diferente. Não livre tipo “vou fazer as malas e ir morar na China”, mas livre tipo “eu sou eu”... O tipo de liberdade que quero aprender. Fazer as malas e sair pelo mundo é fácil pra mim. Sempre foi. Minha lição agora é mais difícil. 
Mas estar aqui, e olhar pras 3 pessoas que estão do meu lado me dá ânimo pra encarar. Eu já chorei o que tinha pra chorar, já questionei o que tinha pra questionar. Quero transformar esse dia, esse momento em um marco. Quero chegar nos 90 (lembra, quero esticar essa brincadeira aqui pelo menos por mais 5 décadas...), olhar pros meus 40 e poder dizer pros meus netos que foi a idade em que eu me refiz, em que eu me conectei. (não boceja não...) 
E que a partir dos 40, a leveza que me faltou veio em abundância. 

Quero ser uma velhinha leve.
Ta aí, minha meta pros próximos 50 anos.
Ser uma velhinha leve.
Que venham os 40!


terça-feira, agosto 11, 2015

Quando um café vira Filosofia

Eu passei invernos gélidos em NY... Invernos que congelaram meu cabelo (literalmente), me ensinaram como me vestir bem e principalmente, como aquecer a alma com comida.... 

Nosso apartamento ficava ao lado do WTC, e tinha uma vista absurda da Estátua da Liberdade. O sábado podia estar parado de madrugada, mas se eu me sentava à janela e me sentia totalmente inserida na cidade mais louca do mundo. Ela pulsava. E eu pulsava junto. Era 2000, e tanto a Big Apple quanto eu éramos ainda doces e inocentes. Nossos maiores temores haviam sido o Bug do Milênio, que não aconteceu. O pior daquele réveillon foi um moleque israelense de seus 20 e poucos anos ter dado em cima da minha mãe, que, assustada, correu pra dormir no meio da festa!

Eu chegava de vôo, vinda de Tokio sempre no final da tarde, e, claro, já estava escuro quando o ônibus da tripulação entrava em Manhattan. Eu podia ainda ser uma garota nos seus 20 e poucos anos, mas eu sabia que estava vivendo algo grande. Atravessar NY iluminada no começo de noite tinha um impacto gigante em mim. Ainda mais quando eu ligava no meu MD (sim, eu tive um MD Player.....) “The Last Note of Freedom” do David Coverdale... Nossa, eu me sentia uma personagem do “The Boxer” do Simon and Garfunkel...

Lembro vividamente de sentir o vento no uniforme fino que usávamos ao descer do ônibus. Sinto como se fosse hoje o cansaço do vôo longo e a vontade de deitar e dormir até o dia seguinte... Mas ainda eram seis da tarde... Não se dorme em NY às seis da tarde.  Dentro do apartamento escuro, eu avistava a moça que nos faz acreditar na tal liberdade lá no meio da água, de tocha pra cima, como quem diz: you go, girl! Go do something!

Como 17 horas de vôo acabam com qualquer um, o resto de energia que eu tinha dava pra um café. Na terra do Starbucks, eu tinha me apaixonado por uma petit française...  Encapotada, encolhida, gelada de frio, lembro quando descobri um pedaço de paraíso quente, em forma de scone e com cheiro e gosto de laranja, pintado de gotas de chocolate, num cantinho escondido do outro lado do WTC, chamado Au Bon Pain... Era esse meu tributo à cidade que nunca dorme, nos meus dias pós vôo... Era lá que eu ia esquentar a alma, com café e scone de laranja. Life was good...

Um ano depois a inocência acabou, num dia ensolarado de setembro. Mas isso é assunto pra outro post. Esse é sobre coisas que aquecem a alma, não que acabam com ela.

Hoje, tantos anos depois, enquanto meus filhos gritam e se recusam a entrar no chuveiro, em dias que não me sinto mais tão livre e aventureira como naqueles idos tempos, eu me vejo de novo com um scone de laranja e um café. Em casa, em pé na cozinha, pensando no jantar. E de repente, escuto a voz do David Coverdale, sinto o vento gelado na descida do ônibus e me vejo divagando por NY em 2000...

Chegar perto dos 40 tem me feito revisitar muito minhas memórias. E revisita-las tem me mostrado exatamente quem eu sou. Ou pelo menos, quem eu vou me tornando...
A idade traz rugas, sim. Traz cabelos brancos, sim. Mas nada disso tira o prazer de olhar pra trás e ver que tudo fez sentido. Cada acerto, cada erro, cada amiga e cada scone com café... 

Agora, ao jantar. E como disse muito bem o "The The":



"But, the side of you they'll never see
Is when you're left alone with the memories
That hold your life together like glue"....



quinta-feira, março 05, 2015

La Revolution ces't moi

É repetitivo dizer que eu nasci na época errada.... Quem me conhece sabe que minha imaginação toda suspira por séculos que eu não vivi, por uma busca incessante por cheiros, texturas e visões do passado. Me larga em Versailles que você me perde, pelo menos pelo dia... Eu ando fora da realidade, procurando ver o lugar como se, de repente, uma carruagem fosse me atropelar. Procuro ouvir o barulho do vestido de seda roçando nas folhas secas do chão, e chego a coçar o nariz com o forte cheiro dos dejetos que os jardins tinham. Em momentos assim, não fale comigo. Eu não respondo. Eu não estou nem ali. Não sou normal. Eu sei...

De uns tempos pra cá, tenho tido uma relação meio obsessiva com biografias históricas. Coisa patológica, do tipo que dá tremedeira.... Deixei de ler quase tudo que não seja a história (ficcionada ou não) de alguma rainha ou rei, e se bater no século XIX é moderno demais pra mim.... Meio culpa da Rubina, que me apresentou "Catarina de Bragança"... Daí em diante, só me afundei em páginas com cheiro de taberna....

A última, e talvez a que mais mexeu comigo foi a Marie Antoinette.... Tonia, para os íntimos.... Ler uma biografia ficcional, contada em 1a pessoa mexeu demais com meu sono. Na verdade, mexeu demais com a minha relação com História. Nada muito novo, não, mas sabe aquele momento em que você descobriu que a "abajur cor de carne" na  verdade é "abajur cor de carmim"? Ou seja, pensar no óbvio às vezes é pura epifania. Me explico...

História sempre foi minha maneira de viajar antes de eu efetivamente poder viajar. Então me lembro muito bem das aulas que tive. Aprendi com muito entusiasmo que a Revolução Francesa foi feita por heróis da democracia, que Danton, Robespierre e Lafayette deveriam ser louvados até os últimos dias, até o After Juízo Final Party e que, principalmente que, Luís XVI e Tonia eram o único grande mal simbólico e efetivo que atormentava a França.

Aí eu ouço a voz da Antoinette, em 1a pessoa, falando dos últimos anos dela. (Não, não foi ela que escreveu, caros, mas a autora fez um relato usando os dados reais, então, voilá...) E o "As flores, de plástico, não mordem..." viram, finalmente, "as flores, de plástico, não morrem"... E eu a olho com outra cabeça.... E, consequentemente, olho Robespierre, Danton e a francesada a quatro também diferentemente. O famoso "A História contada pelos vencedores", então, faz sentido....

Talvez seja a idade, talvez seja a idade, sei lá... Só sei que a idade (essa, repetitiva, que tem me definido tão bem nos últimos... anos...) me fez relativizar demais as ideologias. (ahhh, Jeca chata, chegou ao ponto??? Affff, demorou...) Não consigo me relacionar com nada sem olhar o outro lado. Não há radicalismo que me represente. Se eu sou coxinha ou socialista (não dá pra ser um pouco dos dois?...) se sou religiosa fanática ou atéia impura, se sou hétero, e portanto DEM, ou se sou homo, e portanto Willys, não sei... Não sei se fico, ou passo....

Só sei que a Antonieta pisou na bola forte! Não sabia fazer outra coisa, era representante do mundo dela. Podia ter sido diferente. E não podia..... E sei que, ainda assim, ela era mãe. Amorosa, preocupada e que sofreu tortura dos "libertadores democráticos" no final da vida. Tortura, sim. Só sei que talvez, historicamente, sua execução tenha sido necessária, mas sei que passei o livro todo torcendo pra ela fugir. Mesmo que eu soubesse que a única fuga que ela conseguiu foi pra guilhotina...

Nos dias de hoje, de mundo polarizado, de americanos, de estado islâmico, de Dilma, Bolssonaro, dengue e seca, talvez a grande revolução seja o caminho do meio..... E que atirem as pedras, pra cima do muro, de onde Marianne empunhará sua bandeira....
Afinal, La Revolution ces't ici....

Inté...

PS:

Isso sobre 1789.... Não vejo diferença pra hoje...

"The Reign of Terror claimed approximately 50,000 victims. Of those who were condemned
by Revolutionary Tribunals throughout France, only about 18 percent were aristocrats, 6 percent were clergymen, and 4 percent were bourgeoisie, or middle class. A whopping 72 percent were people from the lowest social strata: peasants or common laborers who were accused of petty crimes, hoarding, and issues related to military service, such as desertion or evading the draft.This would put the lie to any assertions that the Reign of Terror was largely an act of class warfare against the aristocracy. Ironically, and tragically, a handful of demagogues perpetuating the new Cult of Reason to a populace  that was predominantly impoverished, and too lazy, ignorant or brainwashed to think for itself manage to make an entire nation lose its reason entirely and descend into a cicil war that benefited no one".....

In "Confessions of Marie Antoinette", by Juliet Grey

terça-feira, março 03, 2015

O último romântico.

Seria cômico se não fosse trágico... Ele detestava Lulu Santos. Detestava era pouco, abominava, tinha dor nas entranhas a cada agudo daquele carioca. E ainda assim estava ali, na pista do Palace, acompanhando o "me dá um beijo, então, aperta a minha mããão..."

A década de 90 foi dura com ele. Duas faculdades, uma namorada desde os 15 anos, o início da calvície e agora, Lulu... Tudo por causa daquele braço que segurou no dele e disse: "Vamos mais pra frente??? Você me levanta nos ombros?"

O sorriso dela era doce como uma ordem. "Claro, vamos lá"

"Tolice é viver a vida assim, sem aventuraaaaaa"

Gostou da chance de pegar na mão dela, e encheu o peito ao conduzi-la, protetor, por entre a multidão de meninas histéricas, saltitantes e de mal gosto musical. Achou que era um momento bom, ficarem sozinhos, ainda que estivessem rodeados. Ele, ela e desconhecidos. Sentia-se sempre observado quando estavam juntos. Os amigos da turma sentiam a tensão entre eles, não entendiam bem o que era aquilo. Na verdade, nem ele entendia.

Na noite anterior, saíram juntos da aula. Ele a levou até o carro, mas ela começou a reclamar do ex namorado. Não dava pra ler seus sinais direito. Às vezes ela mexia nos cabelos e olhava pra ele de um jeito que não era comum. Às vezes ele a pegava apoiando o queixo nas mãos, no meio da aula, olhando com um meio sorriso pra ele. Às vezes ela era um furacão, falando de namorados e ex namorados como se fossem figurantes de uma tragédia de Nelson Rodrigues. "E se eu beija-la?"
Enquanto ela falava ele pensava em como tocar sua nuca, pegar uma mexa daqueles longos cabelos loiros e puxa-la pra si.

"Se é loucura, então, melhor nem ter razão......"

Olhou pra ela dançando ali, a camiseta regata branca, tão clichê, tão simples, tão ela... Ela, nem tão simples assim... Aproximou-se de seu ouvido, sentiu a mistura do perfume novo do Boticário com o suor do seu pescoço, e perdeu um pouco os sentidos. "Sim, eu sei que é enrolado, eu sei que talvez você nem sinta o que eu sinto, mas eu preciso de um beijo seu..." Suspirou, e antes que ele falasse, ela olhou por cima dos seus ombros e gritou: "A Renata!! Vem, ela está sozinha ali, coitada!!" Trocou o calor da nuca pelo suor da mão dela, que novamente no comando, levava ele de volta ao grupo, à realidade, à noite inerte da rua deserta da faculdade.

"Só falta te querer, te ganhar e te perdeeeerrrr, falta eu acordar, ser gente grande pra poder choraaaaarrr"

Ele detestava Lulu... Detestava os anos 90, o Boticário, e já sentia ódio pela camiseta branca molhada que ela usava. Só não conseguia odiar ela...
Saíram juntos da casa de shows, todos, rumo à lanchonete. No meio da madrugada ela foi até o orelhão, e mexia nos cabelos enquanto falava com alguém. Ele pensou nos figurantes que passavam pela vida dela. Seria um deles? Viu que ela ficou parada após desligar, pensativa. Era louco como ela podia ser, ao mesmo tempo, tão transparente e tão confusa...

Viu que ela entrou num táxi, sem se despedir de ninguém. Estava chorando. Ele, aflito, levantou e correu até a calçada, mas não dava mais tempo. Não dava mais tempo de puxa-la pela nuca, de dizer o quanto o cheiro dela o enebriava, o quanto ele queria virar a vida do avesso por um beijo.
Deu tempo apenas de cruzarem olhares. Ela, lacrimosa. Ele, ardendo.
Ela sorriu, e se foi... Perdida, solta na rua deserta, inerte...

sexta-feira, maio 09, 2014

A saudades que não se mata

Nas últimas semanas tenho visto repetidas vezes uma chargezinha divertida sendo compartilhada no Facebook, que fala sobre o ciúmes de amigos... Algo como "Tudo bem meus amigos terem outros amigos, desde que me amem mais".

Num primeiro momento achei engraçadinha, pensei em algumas amigas minhas que amo muito, mas que, infelizmente, já não fazem parte do meu dia a dia, e portanto, devem ter outras amigas próximas que têm o papel que eu um dia tive...

Pra mim, que moro no meio do nada, longe dos meus círculos "um dia sociais", fica muito difícil manter os laços. É triste, mas verdadeiro. (Sorry, Metallica, em outra língua não deve ser plágio...) E o Facebook desempenha um papel bipolar, se não esquizofrênico neste cenário.

Ao mesmo tempo em que vejo reencontros saudosos acontecendo, gente que não se encontra há décadas e pode, enfim, matar a saudades, vejo muita gente sofrendo justamente dessa saudades. Aliás, dizer que matamos a saudades via Facebook é meio assustador. Na minha época de saúde social, eu matava a saudades com um longo abraço, um happy hour no Juarez ou uma tarde de fofoca no sofá. Agora parece que nos satisfazemos em acompanhar o crescimento de filhos de amigos pelas fotos, filhos estes que nunca pegamos no colo. Nos satisfazemos em saber que "temos" ainda tais amizades, "desde que nos amem mais que os amigos que efetivamente tocam a campainha da casa deles..."
E, só pra saber... onde é a casa deles?

Esse "ciúme" que achamos engraçadinho e com que brincamos nos comentários, é, na verdade, bastante doloroso. Pelo menos pra mim, é. Me aponta que não fui capaz de manter meus laços. Me mostra que tive gente maravilhosa ao meu lado, e que deixei que partissem. Me lembra que a vida passa, e leva muitos amores pra longe.

Por outro lado, penso nos amigos que hoje tenho por "perto"... Aqueles que sentam no meu sofá e comem da minha comida (ou melhor, da comida do meu marido, que cozinha bem melhor que eu...). Aqueles que me oferecem ombro, de carne e osso mesmo, e de quem lembro o cheiro. Amigas que conhecem minhas aflições e alguns de meus segredos.

E amigos que ainda estou construindo, conhecendo, descobrindo olhares e trejeitos, desembrulhando passados.
Desejando que esses laços fiquem na realidade. Que possa seguir os abraçando. Que possa ainda curtir o que fazem pessoalmente, e não pelo botão.

E o ciúmes das amigas antigas? Continua... Afinal, eu sou muito mais legal que a madrinha do filho caçula dela, afinal, nossas viagens eram muito mais legais que as que ela faz com aquela outra, afinal, foi comigo que ela chorou o fim daquele namoro, afinal, afinal, afinal...

Continua também, a vontade de matar de verdade as saudades. Digitar endereços no waze e tocar campainhas.
Reaprender caminhos, olhares e sentimentos.
Brindar o que ainda podemos reaver...


sábado, fevereiro 22, 2014

A mentira da invenção

Querida filha.

Estamos em 2014, e você tem apenas 4 anos. Quero que a tecnologia permita que eu deixe alguns recados pra você, caso eu me esqueça ou não dê conta de te dizer tudo.

Cheguei à conclusão que a maternidade é a melhor terapia que podemos fazer. Em você me reconheço e me conheço, mais do que poderia imaginar.

Quando eu era pequena, me chamavam de mentirosa. Assim, na cara dura, e por muitos anos carreguei a vergonha dessa característica" minha. Afinal, se diziam que eu era mentirosa, eu devia mesmo ser não?

Sim, eu contei muitas coisas que não aconteceram. Contei que nasci no avião, entre o Brasil e os Estados Unidos. Contei que vi o ET no final da rua. Contei que vi um padre com crucifixo de olho vermelho levitar na capela da escola. Contei muito mais. E virei mentirosa.

A vida passei buscando ser o mais fiel à realidade possível, como quem busca se redimir de uma fama injusta, com a culpa do erro.

Aí veio você. Vieram você e se irmão, pra ser mais exata. Um pragmático que nasceu com os pés no chão e uma..... uma..... uma cabeça nas nuvens, ou "mentirosa" como eu fui.

Passei muito tempo preocupada com os sofrimentos que você poderia passar por essas "mentiras"... Eu passei. Me questionei muito sobre como lidar com as fantasias, se eram apenas fantasias, ou se eram uma necessidade de chamar a atenção. Viagens que não aconteceram na roda da escola, brigas com amigas que jamais existiram, dinossauros em cima do carro que... bom, dinossauros em cima do carro, ponto final.

Aí ouvi uma frase que me tirou o chão. O mesmo chão em que aprendi a pisar pra não ser chamada de mentirosa: "Invenção é um negócio profundo, invenção é uma coisa que serve pra aumentar o mundo".

Caí de costas. Caí no passado. Caí no choro.

Por que meus pais não conheceram Manoel de Barros pra ouvir isso? Por que não me disseram que o que eu queria era simples assim, como "aumentar meu mundo"?

Hoje descolei de mim uma imagem que me incomodava demais, e que tinha pavor de grudar em você. Siga inventando filha. Siga criando essas extensões do seu mundo, já que você é grande demais para o concreto do nosso. Não vale estar aqui sem olhar os dinossauros no teto do carro. E sim, você pode e vai casar com o Neymar quando crescer. Por que não? Eu não casei com o Bono?..... Tudo pode. Pode tudo.

Daqui pra frente vamos é inventar mais e mais juntas.
E ajudar seu irmão a levitar um pouco, como o padre que vi na capela.

Te amo
Mamãe

"O olho vê
A lembrança revê
E a imaginação transvê.

É preciso transver o mundo"

Manoel de Barros

Bipolaridade básica....

Eu amo trabalhar com adolescente por inúmeros motivos, mas talvez o maior deles seja justamente o fato de eu amar lembrar da minha adolescência.
Foi linda, horrorosa, angustiante, sensacional, cheia de amor, sem amor nenhum, feliz e absolutamente deprimente. Ou seja, uma adolescência como outra qualquer.

Claro que como toda menina de 16 anos, meu maior alvo de revolta eram meus pais. Quem mais seria? Quem mais na Terra poderia me atrapalhar tanto quanto eles, os vilões, os carcereiros dos meus pais?

O causo que mais gosto de contar foi de um namorado que tive.... (aliás, tem causo melhor que de ex namorado?)

Conheci ele na porta da escola. Não, ele não era aluno da escola elitizada que frequentei. Ele era mecânico em uma rua do lado. Mecânico sim, não me venham com preconceitos. Ele era lindo, cabeludo, e cheio de graxa. Tinha nome de batismo, lógico, mas o apelido era a pimenta que faltava naquela moqueca: Punk'eca. Sim, panqueca.

Ela era amigo de uma amiga, e me lembro do dia que ele foi conhecer todas as meninas do grupo, no portão da escola. Como toda adolescente bem resolvida (SQN) eu tinha certeza que ele ia amar outra do grupo, bem mais bonita que eu. Qual não foi minha surpresa quando soube que ele queria sair COMIGO. COMIGO. Eu, euzinha....

Xonei. Eu 16. Ele 24....

16.... 24.....

Estudante, filhinha de papai. Mecânico, cabeludo, sem nome. Cheio de graxa. Ou seja, é ÓBVIO que meu pai ia amaaaaarrr ele tanto quanto eu amaaaavvvvaaa.... Era ou não era o genro que ele pediu a deus??? O que poderia dar errado???

Tudo...

Passei 8 meses namorando um pária. Ele não entrava em casa, eu não podia sair. A santa da minha mãe acobertava, e eu ficava na porta da cozinha, olhando por baixo do portão de casa, vendo a roda do Alfa Romeo passar na lombada pra eu sair correndo com o príncipe encantado que só meu pai não reconhecia.

Foi o romance mais delicioso "evah", cheio de declarações (e traições...) na rua, e uma guerra em casa. Ingredientes perfeitos para uma adolescente dramática.

Sorte do meu pai que um dia minha cabeça pesou demais e eu acabei o namoro. (Peso na consciência, não, peso peso mesmo. Chifre. Muitos.)

Mas o mais interessante ainda está por vir.

Um ano depois, eu chego em casa e meu pai, todo sorridente, vem me dizer que um rapaz muito simpático tocou a campainha em casa. Um rapaz de terno, gravata, educadíssimo.

-Quem era pai?

-Um tal de Marcus Vinícius.

-Marcus Vinícius, pai????

-É gostei dele. Fala bem, bem apessoado.

-Pai. Senta. Marcus Vinícius é o Punk'eca.

Sentei-me ao lado do velho. Enquanto ele digeria o que quer que seja que ele precisava digerir, eu fazia uma grande descoberta. Não queria o Marcus Vinícius. Queria a graxa que incomodava meu pai. Queria mais provocação que a paixão. Senti um certo vazio, mais ainda no olhar confuso do meu pai, que devia estar revendo alguns conceitos dele que eu, filha, não imaginava que precisassem ser revistos.

Gostaria de ter descoberto naquele momento o que hoje sei. Que todos nós somos Punk'ecas e Marcus Vinícius. Que todos nós nos reinventamos e somos bem mais que aparentamos. E mais, que todos nós somos Antônios e Tatianas, que dão murro em ponta de faca até perceber que a faca pode ser redonda. Dói tão menos.

Mas não percebi nada disso. Dei um tapa no ombro do  meu pai e transformei isso na piada da família. Em alto teenage style me senti vitoriosa.
Ou não.
Sei lá.

domingo, dezembro 01, 2013

O Quarto Pintado


O quarto pintado

“Daqui em diante, tudo já é mundo”
in Gabriel Garcia Márquez


     O começo foi o barulho forte de uma porta batendo ao vento. Ventania de fim de novembro, anunciadora das chuvas de verão.
“Deve ter alguma janela aberta em cima... Mas e então? Gostou da casa?” perguntou ansioso o corretor, que havia meses não conseguia sair de aluguéis baratos que mal pagavam a escola do filho.
“Não sei, a vizinhança é boa, mas será que comporta um restaurante como o meu?”
“Claro, Sr. Ulisses, comporta sim.”, respondeu enquanto guiava seu melhor cliente há tempos para o andar de cima. “Aproveitamos e fechamos a janela. Parece que vem chuva forte, hoje, não?”
Subiram a escadaria antiga de madeira, o corretor falando do bom trânsito das ruas, da excelente estrutura elétrica da casa, enquanto Ulisses sentia as rusgas do corrimão em seus dedos, absorto em imaginar quantas mãos por ali tinham passado. Chegando ao andar de cima, encontraram um logo espaço quadrado, claro, com quartos que se encaravam frente à frente, em um ambiente livre e ventilado. O corretor continuou a falar, entrando de quarto em quarto, checando as janelas...

Ulisses já não o ouvia mais. Parado à porta do segundo quarto, percebia que a voz do rapaz se distanciava, num abrir e fechar de janelas errôneas, enquanto ouvia o sibilar do vento.
“É daqui. O vento vem daqui.”, murmurou, entrando no aposento.
O corretor se apressou atrás dele, se desculpando pela bagunça e pelas paredes pintadas, “essa casa está fechada há muitos anos, essa parede o senhor pinta, eu posso até ajudar, viu, meu pai foi pintor, eu sou bom de pincel”
“Quero.”
“Quer? Venho sim, viu, trago até meu filho..”
“Quero a casa. Quero esse quarto.”

***

Laura correu os olhos pelas estantes da biblioteca do pai, curiosa, olhos de jaboticaba famintos por algo que fizesse aquele sábado chuvoso passar mais rápido.  Sentia as lombadas frias como quem procura o gato certo para acariciar. Mordia os lábios, num movimento de quem pensa muito profundamente sobre a decisão certa a se tomar.

Deu um pulo assustada quando uma porta bateu com muita força. Segurava um livro, que saiu da fileira arrumada da biblioteca no instante em que ouviu sua mãe gritar, também assustada “Laura! De novo sua janela aberta, menina! Quantas vezes já pedi para você fechar em dia de chuva? Minha porta já lascou de tanto bater”.

É esse, pensou. Capa vermelha com a ilustração de uma garota mal maquiada no centro. “Erêndira”. Que nome estranho. Gosto do estranho.
Subiu as escadas segurando-se no corrimão áspero, absorvida na capa e no nome do livro. “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua vó desalmada.” Perfeito para um dia de chuva.
Naquele final de semana Laura não foi mais vista. Seu pai, zeloso, levou-lhe o jantar e a encontrou de bruços na cama, apoiada nos cotovelos, pés descalços cruzados no ar.
“Pai, esse livro é mágico.”
“É? Ele tem um segredo? Qual o poder dele?”
“Não assim, pai... Não tenho mais cinco anos” riu Laura enquanto se sentava para arrumar a bandeja que o pai trouxe. “Mágico mágico, sabe? Acontecem umas coisas bem loucas, a menina e a avó se comunicam no sono. A casa é viva... Estranho. Gosto do estranho.”

O pai sorriu do encantamento da filha, alisou-lhe os cabelos e apenas pediu que comesse. “Depois você me conta mais, sua mãe fez minha sobremesa favorita. Pavê de coco. Não quer descer?”
Não ouviu resposta. Saiu do quarto da filha fechando lentamente a porta, com o cuidado de não a tirar mais da magia. A janta certamente esfriaria....
Laura se levantou, suspirando. Foi até a janela e, abafada de novembro, abriu as duas folhas, precisada de vento.

Deixou que a ventania invadisse o quarto. Ficou de olhos fechados recebendo a fúria que vinha de fora, e não se importou com os papéis que voaram, os desenhos que saíram do lugar, os porta retratos que caíram. Sabia que aquele era seu momento de Erêndira. Queria tanto aquela magia pra si que ouviu o vento lhe sussurrar  nos ouvidos, viu quando ele caminhava por entre seus vestidos e por ele se apaixonou. Precisava daquele movimento sempre, dentro e fora.
Descalça desceu pulando os degraus, para encontrar seus pais começando a jantar.
“Mãe, quero uma cortina de voal.”

****

 No dia da mudança o barulho de panelas batendo era intenso. A esposa de Ulisses arrumava os utensílios com os funcionários enquanto ele carregava caixas e mais caixas. O restaurante era seu grande sonho, sua grande magia. Aprendera a cozinhar com as tias, em uma fazenda no interior de São Paulo, onde cresceu. Filho do mato, pôde estudar graças ao suor e aos calos do pai, e um belo dia se viu estagiando em um grande restaurante em Bologna, na Itália. Naqueles anos criou seus próprios calos, mas foi abençoado com um novo olhar. Entre um risotto e um ravióli percorria os museus em busca de um suspiro ancestral. Via nas telas renascentistas um tempero como nenhum outro, e sabia que ali, na frente de cada moldura, nascia algo que ele ainda não conhecia.

Voltou ao Brasil com esse gosto na boca, e ao lado da esposa e do filho, pôde finalmente traduzir isso em um espaço seu. Não queria um restaurante comum. De italianos São Paulo já se bastava. Queria algo novo, ventilado, mágico.  Foi quando encontrou a casa.
Quando começaram a reformar os ambientes para que se adaptasse a um restaurante, ele lacrou o quarto pintado.  “Esse espaço é meu, não mexam.”
Ao final daquele primeiro dia de arrumações, Ulisses e a esposa iam saindo quando se deram conta que Estevão tinha sumido. O menino de 6 anos acompanhava toda a movimentação como um pequeno chef natural, organizando com o pai cada panela em seu devido lugar. Desta vez, entretanto, não estava na cozinha. Não estava nos banheiros, em cujas portas ele mesmo havia desenhado “meninos” e “meninas”. Ulisses sentiu, então, os dedos encostarem no corrimão de madeira. Olhou para cima, e ouviu o vento. Subiu.

Estevão estava de frente para a parede do quarto pintado, sentado em um pufe que Ulisses colocara ali para descansar. O menino delineava a árvore que subia do rodapé até o teto, como se ele mesmo a estivesse pintando, tão compenetrado que gritou quando o pai tocou-lhe o ombro.
“Quem pintou isso, pai? É tão linda, tão grande...”
“Não sei, filho.... Alguém que morou aqui há muito tempo. Devia gostar demais dela... Veja, nestas folhas podemos ver marcas de dedos feitas com a tinta...”
“É mesmo....” disse maravilhado o menino “De quem será esse dedo?”...
“Não temos como saber, Estevão... Compramos a casa de uma fundação, já perderam o contato com a família faz tempo. Por um lado é até bom, sabe? Nestes meses em que reformamos a casa, quando eu ficava muito cansado, vinha até esse quarto, me sentava nesse pufe e ficava ouvindo o vento que adora entrar por essa janela de madeira. Parece até que ele conversa com a gente. Então ficava imaginando quem poderia ter sido o dono desse dedo, desse quarto, dessa árvore. Uma árvore que brotou na parede, mas que nasceu de alguém. E imaginar isso me relaxa... Por isso não mexo neste quarto. Ele vai ficar assim, pintado, zunindo.

Estevão foi até a janela e a abriu. O vento entrou sem pedir licença, como quem já conhece os caminhos. Bagunçou os cachos do menino, que abria a boca para senti-la secar, e encheu o quarto de frescor.
“Pai, essa janela precisa de uma cortina. Uma cortina que dance com o vento.”

****

“Coitada da Erêndira, ela passou a vida pagando por uma dívida que nem era dela... Deve ser triste viver em dívida.”
Laura não conseguia se despedir do livro, da Erêndira, do estranhamento que aquelas linhas causaram. Era uma realidade gigante demais para caber somente nas páginas.
“Mas que dívida é essa? Era a coisa lá com a avó dela?”
“A coisa lá com a avó dela, que jeito de falar, Nelson, a coisa lá... Já te contei a história, aliás, umas mil vezes.”
“Eu sei, Laurinha, mas você me conta assim, deitada no meu colo, não consigo me concentrar. Espero pra te ver a semana toda e você me vem com essas histórias malucas. Eu aqui, louco pra cheirar seus cabelos, te pegar pela cintura e você com essa Erêndira. Daqui a pouco eu vou ficar é com ciúmes dela...”

Laura deu um beijo em Nelson consolando o namorado carente.
“Eu sei, desculpe. Mas fiquei pensando em como a culpa move as pessoas... Mesmo que seja culpa de algo que nós nem tenhamos feito... Desculpe...”
Estavam no parque da Aclimação, à beira do lago, como faziam todas as tardes de sábado. Nelson vinha do colégio interno para a casa dos pais, mas corria logo pro colo e pra loucura de Laura. Uma loucura que ele aprendera a amar desde criança, quando brincavam na rua.

Conheciam cada detalhe do parque, cada árvore, cada cerca.
“Será que a cerca sente culpa por cercar a árvore?”
“Ah, Laura, pelo amor de Deus... Cerca sentir culpa? De novo o livro, né?”
“Não, não é isso... Nós vivemos nos cercando, cercando de proteção, de coisas, de medos, de regras... Me sinto um pouco como aquela árvore. Cercada.”
Nelson se levantou irritado. Até pra ele as divagações de Laura tinham limite. Disse isso pra ela e foi embora.

Laura continuou ali. Procurando as lágrimas na jaboticabeira cercada.
No sábado seguinte, logo cedo, a campainha tocou. Deitada em sua cama, Laura ouviu a voz de Nelson, fechou os olhos e fingiu que ainda não tinha acordado. Percebeu que a porta se abria pela força do zunido do vento na janela. Ouviu os passos de Nelson que se sentou ao seu lado.
Contente por vê-lo, abraçaram-se por algum tempo, até que ela viu algo brilhando no chão.
“É uma lata de tinta... Acho que sei como você pode libertar sua jaboticabeira...”

****


Naquela semana o restaurante de Ulisses fazia aniversário. Um ano de portas abertas. Uma correria, mas uma correria que dava muito certo. O ambiente que ele criara unido ao sabor único dos pratos rendeu ao lugar uma lista enorme de clientes fiéis. Ele estava exausto. Sentava-se diariamente, antes de acender a cozinha, no pufe de frente para a parede pintada. Já conhecia cada traço, cada nuance da tinta, cada espaço onde ela se perdera no tempo. Já conversava com o vento, compreendia-o como nunca e respirava a magia do quarto.

Na segunda feira, dia de escritório, ele percebeu que o vento se agitava. Não vinham as nuvens costumeiras, mas o sibilar dentro da casa ficou insuportável. Ulisses correu os quartos para ver se mais alguma janela se rendia ao poder da ventania. Algo estava estranho.
No quarto pintado, as cortinas que dançam se enrolavam tanto que ele pensou que fossem cair. Receoso, fechou as janelas, portas e resolveu ir trabalhar no apartamento. Ligou para que a esposa viesse busca-lo e desceu.
Ao trancar o portão, viu na calçada oposta, uma senhora elegante que observava a casa. Reparou que ela olhava diretamente para a janela de cima e ouviu quando o vento forçou a janela, e ela abriu... Um senhor chegou por trás dela, disse algo em seu ouvido e cheirou-lhe os cabelos. Deu um beijo em sua face a acompanhou ao atravessar a rua.

Ela estava tão absorta na janela que não viu Ulisses à sua frente.
“Pois não, senhora? Hoje o restaurante não abre. Desculpe.”
Ela não respondeu. O marido tocou-lhe o braço e ela saiu do transe piscando os olhos.
“Não, não viemos jantar, não... Sabe o que é?... Eu cresci nesta casa.”
Ulisses sentiu o vento soprar mais forte. Os cabelos dela caíram nos olhos, que ele notou serem grandes e curiosos...
“A senhora morou aqui?”
“Sim, há muitos anos. Hoje vivo em Florença, tenho um ateliê de cerâmica. Vim visitar minha filha e quis ver a casa. A janela.”
“Ouvir o vento...” sussurrou Ulisses. “A senhora é artista.... Sei qual foi seu quarto, venha.”

Entraram os três, guiados pelas rusgas do corrimão de madeira, escada acima, em direção ao som do vento.
Dentro do quarto, Laura passou os dedos na árvore. Olhou para Nelson e os dois sorriram.  Ulisses observava a senhora que ele tanto imaginou. Viu que era bela, e que tinha no olhar um encantamento que há muito não via. Artista, claro... Quem mais poderia ter vivido ali?
Laura mal acreditava que após tantos anos sua árvore estava ainda ali.  Olhou a cortina e se lembrou de Erêndira. O voal que lhe levava para dentro do livro tocava igualmente outra alma, outra fome. Fome de vida, de vento...

Sentiu então que uma mão segurava a sua, e viu aos seus pés um menino. Estevão vinha buscar o pai quando os encontrou de frente para a parede.
Sem dizer nada, ele guiou a mão dela até a mancha na folha pintada... Como quem monta um quebra cabeças, encaixou seu dedo na digital antiga, gasta, serena... Vendo a emoção dela, Estevão disse:
“A senhora sabia que esse quarto é mágico? Meu pai acha que é o vento, mas eu sei que não é... Ele é mágico por causa da árvore.”
“Da árvore?” perguntou Laura, enrolada no choro preso.
“É... A árvore é livre.”