sexta-feira, janeiro 08, 2016

A meia crise da meia idade

A tela está em aberto há muito tempo. Nada sai. Se eu fosse uma grande escritora, diria que estou em “bloqueio criativo”, mas não sou nada grande. O que estou vivendo, é a pouco glamourosa crise da meia idade... Assim, seca, dura, cheia de pontas de reflexão e muitas lágrimas...

E “pouco glamourosa” porque toda crise da meia idade tem um quê de glamour... A gente alcança os 40 sabendo que pra tudo temos que ter classe. Até pra crise.
E é minha primeira crise existencial poderosa, então é melhor que seja, pelo menos elegante.

Não me ajudou muito o fato de estar fazendo 40 em meio a uma mudança gigante na minha vida. Na vida da minha família. Tudo de cabeça pra baixo, exatamente no lugar onde queríamos e do jeito que queríamos. Paradoxal, não? (Não disse que tem uma ponta de glamour?) Estar longe de pessoas que amo, perceber que fazer uma rede de amigos leva tempo, e que minha carreira como eu a conhecia acabou é pimenta na ferida. Paralisei. A escrita faz parte da primeira fase da minha vida. Será que ela também acabou? Será que perdi a mão?  

Se você cansa rápido de clichês, pode parar de ler. Fica chato. Fica repetitivo. Mas eu preciso tocar nesse tópico. Infelizmente a rotina é clichê. 
Exclusividade, só bungalow no Tahiti.

Eu lembro bem do meu pai dizendo pra mim que eu era super inteligente e que ia ser grande. Ia fazer grandes coisas. Muito amor envolvido nessas expectativas. Muito mesmo, não tenho dúvida. Era nessa expectativa que eu sentia o calor dele. 

“Nunca dependa de marido nenhum, tenha a sua carreira”, dizia o homem que proibia a esposa de trabalhar...

De uma maneira torta, eu acreditava. Precisava acreditar. Se era meu pai dizendo, devia ser verdade.
Eu busquei essa grandeza por anos. E até acho que cheguei perto em alguns momentos. 
Olho com muito carinho pro que fiz em sala de aula, o que fiz no pouco tempo de fotografia. 
O problema é que essa busca era pra atingir a expectativa dele, não minha. Então durava pouco. (tá aí, Francisco, a resposta pra tanta energia gasta e não concluída. Quanta terapia pra chegar nisso, né?) 

E de repente, tudo que ele pediu pra eu não fazer aconteceu. Sem carreira, me dedicando 100% à família. É como a criança que ouve pra não colocar o dedo na tomada e, pum, enfia a mão inteira de uma vez. Eu olho pra trás e só consigo ver a frustração de expectativas. 

“Fui grande nada, pai... Desculpa aí...”

Só que se fosse assim claro e bem resolvido seria fácil. Eu teria tomado uma por ele e pronto. Tudo resolvido. Mas não é. Dói porque essa visão dele se tornou minha. (Clichê, eu avisei...) E agora? 
Quem sou eu? (Francisco, essa ainda não deu pra descobrir, viu? Preciso de mais das nossas queridas e doloridas sessões...)

Eu não cresci ouvindo que ser mãe é grandioso. Nunca ouvi ninguém me dizer que a felicidade estaria em ser quem eu sou, por si só. Sem ter que alcançar nada, sem ter que fazer nada. 
Apenas sendo eu. 
(Tá o Paulo Coelho disse isso algumas vezes, mas eu detesto Paulo Coelho, então, tipo, ele não pode estar certo, né?)

E é com isso que eu preciso apagar as 40 velas do meu bolo. “Quem sou eu?” (ah, Tatiana, você realmente perdeu a mão! Sério?? “Quem sou eu?” That’s all you can come up with?) “O que vai ser daqui pra frente?”, “De onde eu vou alimentar minha felicidade?”

E quando eu percebi que estas são minhas perguntas pras próximas 4 décadas (espero que eu responda em bem menos que isso. Só assim estendo essa bagaça e vivo mais umas 5 décadas...) entrei em pânico.

“Ué, a felicidade não está no carinho dos meus alunos?”
-Béééémmmm
“Não está no elogio que fazem das minhas fotos?”
-Béééémmmm
“Não está no olhar de admiração dos outros?”
-Béééémmmm

Então peraí que eu vou ali rever minha vida toda, chorar litros e já volto.

Corta pra hoje. 8 de janeiro de 2016. Pula as “saídas da casinha” dos últimos tempos. (Como bem disse uma amiga que também está passando pela crise dos 40! Valeu, querida, saber que não sou a única ajuda muito a passar por isso. E voltar pra casinha...) Pula o ombro do meu marido que me escuta, escuta e escuta.

Corta pra hoje. 8 de janeiro de 2016.

Nova York.

Meu presente de aniversário não veio embrulhado em caixinha nenhuma. Veio na forma que eu mais amo: passagem e reserva de hotel. E pra uma das cidades que mais marcou minha vida. Uma cidade onde eu aprendi, lá nos meus 20 anos, a ser livre. Hoje eu sei disso. Na época não sabia de nada.
Estar em NY nesse momento, com meu marido e meus filhos, me ensina a ser livre de novo. Mas de uma maneira totalmente diferente. Não livre tipo “vou fazer as malas e ir morar na China”, mas livre tipo “eu sou eu”... O tipo de liberdade que quero aprender. Fazer as malas e sair pelo mundo é fácil pra mim. Sempre foi. Minha lição agora é mais difícil. 
Mas estar aqui, e olhar pras 3 pessoas que estão do meu lado me dá ânimo pra encarar. Eu já chorei o que tinha pra chorar, já questionei o que tinha pra questionar. Quero transformar esse dia, esse momento em um marco. Quero chegar nos 90 (lembra, quero esticar essa brincadeira aqui pelo menos por mais 5 décadas...), olhar pros meus 40 e poder dizer pros meus netos que foi a idade em que eu me refiz, em que eu me conectei. (não boceja não...) 
E que a partir dos 40, a leveza que me faltou veio em abundância. 

Quero ser uma velhinha leve.
Ta aí, minha meta pros próximos 50 anos.
Ser uma velhinha leve.
Que venham os 40!


2 comentários:

Evandro Pontes disse...

Belo texto

Pedro disse...

Aprender a sustentar a leveza é um bom objetivo ;)