quarta-feira, abril 29, 2009

Isso aqui, ô ô...

Acho muito interessante observar crianças que nos chegam fresquinhas da 4a série, cheios de pudor e com uma polidez ainda infantil, que em meses vai sumindo e se transformando em hábitos já bem adolescentes.
Particularmente, prefiro lidar com eles já mais maduros, vejo mais participação e podemos discutir melhor tópicos do dia a dia, coisa que é praticamente impensável quando os alunos, ao te avistarem apontar no final do corredor, ainda correm para a sala gritando
"A prô chegouuuuuuuuu!!" e se sentam religiosamente com as mãos em cima da mesa, silenciosos, respeitosos....
Mas, claro, isso é um processo...
Comigo eles levam dois choques, logo no primeiro bimestre, que é pra saberem de cara com quem estão lidando.
O primeiro vem quando me perguntam em qual igreja vou à missa... Pois é, cidade do interior tem dessas, cada um no seu galho, ou melhor, no seu genoflexório...
"Não vou à missa. Na verdade desde os 16 anos não vou à missa."
Uns abrem os olhos incrédulos, outros abrem um sorriso esperançoso, seguido de comentários como "Eu vou porque minha mãe obriga..." Mas enfim, dou uma opinião geral, falo um pouco sobre minha filosofia de vida e let´s move on, caso contrário dia seguinte terei pais raivosos querendo queimar a herege. Deixo sempre claro que religião não se discute e que eu respeito todos os tipos de fé, mesmo que aminha seja no faith at all....

O outro choque vem quando eu os faço perceber que são tão corruptos quanto alguns maus políticos.
O movimento é quase sempre o mesmo. Hoje, analisando contos de Pedro Malasartes, um velho espertalhão folclórico, tivemos a seguinte questão:
"Os contos mostram características culturais dos povos. Você acha que o brasileiro age como Pedro?"
A resposta geral foi um belo, sonoro e ofendido
"Não, de jeito nenhum, tem um ou outro que é espertalhão, mas não é típico do brasileiro, não!!!"

Aí vem a professora bruxa, advigada do diabo e pergunta:

"Ah, é? Quem de vocês já pôs o carrinho de supermercado atrás do carro vizinho e largou pra ele o trabalho de devolver? Quem de vocês já guardou lugar na fila do cinema pra um amigo que chegou tarde? Quem de vocês já não ficou alegre ao ver que, lá no comecinho da fila tem um conhecido seu, que, ufa, você pode fingir que tinha marcado com ele? Pior! Quem de vocês não entrou em um trabalho em grupo, feliz da vida porque só tinha nerd e você não ia precisar fazer nada, e mesmo assim ganhar nota? E quem de vocês não inventa desculpas esfarrapadas pra tentar me enganar quando não faz tarefa?"

Caras brancas, olhos esbugalhados, bocas semi abertas.... Lamparinas a toda...

E assim começamos mais um ano, esperando que, se chegarem ao ensino médio detestando língua portuguesa, pelo menos devolvam os carrinhos ao lugar adequado. O vizinho agradece...
Inté

2 comentários:

Cláudia disse...

Bela, que tá aprendendo a dirigir, hoje me sai com essa: vou fazer a prova no detran, e se eu nao passar, vou comprar a carteira.

Isso na fila da Gol pro check-in. Não podendo estapear diante do absurdo, respondi apenas que ela faria quantas aulas ela desejasse, e faria a prova quantas vezes fosse necessário, e tiraria a carteira de motorista pelos meios legais, que ninguém ali era bandido.

Mas é isso mesmo, de pequenas atitudes em pequena atitudes vamos nos tornando péssimos cidadãos.

E cadê a Lolinha!
beijo

Ana Flávia ! disse...

Aaa sim, a parte do carrinho de supermercado será um peso na vida deeles!

pro adorei os textos! Beijos!