quinta-feira, dezembro 06, 2007

Chega uma hora em que o pé fica looonge....

Chamamos de raízes às marcas de quem somos.
Muitas vezes elas são fortes demais e jamais mudam, como por exemplo, sutilezas de sotaque...
Meu pai, há 60 anos no Brasil, ainda fala "iel" para "ele" e "trcéiro", para "terceiro".
O chimarrão obrigatório nos Colla Household é registro orgulhoso de nossa gauchice tropeira.

Muitas vezes elas são passageiras e muito piegas, como quando morava em Nova York e, com saudades patrióticas do Brasil, caí no choro em uma boate ao ouvir... é.... então.... O Bonde do Tigrão.... Pois é, confesso, mas o leitor deve entender que o nível de sensibilidade do exilado chega a tal nível que até a manifestação mais risível se torna o maior marco de identidade cultural. Ainda bem que a egüinha pocotó ainda não existia naquela época, minha vergonha seria bem maior.

Aqui na roça não é diferente, claro...
Pode-se cair no ledo engano de se crer que não há tanta diferença entre São Paulo e uma cidade que fica a 70 kilômtros dela, mas as raízes nos acompanham até quando mudamos de bairro, de cidade então, nem se fala.

Há três anos aqui, tenho mantido fielmente meu kit de paulistana nata.
Não aderi ainda ao "porrrrta", nem à falta quase obrigatória de plural, que domina a fala dos mais instruídos, por incrível que pareça.
Há, claro, outras coisas que me ligam à capital, como casa da mãe, USP, amigos, médicos, etc.
Mas aqui, no dia a dia da vida do campo, havia duas raízes fortes que ainda mantinham meu cordão umbilical firme e forte com a metróple: título de eleitor e placa de carro.
Até semana passada, pelo menos...

Ao trocar de carro, precisei abrir mão da minha placa de São Paulo. Agora sou EU a motorista da frente que eu mesma xingava pela placa:
"ê, caipira, anda mais rápido..."
"Putz, que devagar... Essa povo não tem pressa mesmo...."

Havia uma identificação completa com carros de São Paulo, algo como uma piscadela de irmãos, que sabem o que é ser paulistano. Agora não tenho mais, preciso gritar "é só a placa, eu não sou daqui!!!" mas ninguém me ouve...
Entro em São Paulo e me sinto na obrigação de escrever uma nota, daquelas de papel sulfite coladas no vidro traseiro, dizendo que não me julguem pela placa, que na verdade sou como eles, paulistana...
Sou?
Ainda?
A poluição já machuca meu nariz?
Os motoqueiros já me assustam?

Mas ainda não me sinto pronta para mudar meu título de eleitor, nem para assinar o Jornal da Cidade. Quero discutir a prefeitura de São Paulo, quero ler a Folha e quero saber o que a sub-prefeitura do Butantã tem feito pelo Morumbi!

Ah, o título do post?
Não tem nada com o assunto, é que hoje de manhã sofri para colocar a meia, e percebi qué a barriga atrapalha o acesso ao pé....
Só isso....

Inté!

Um comentário:

Rubina disse...

LOL Percebo muito bem esses dramas e o choro e ranho cultural...lol...