quinta-feira, abril 26, 2007

Pequena Utopia

Foto: Olhares.com

Minha profissão é daquelas bem mal reconhecidas no país... Gera até adesivos e camisetas irônicas, lembram do famoso:

"Não me seqüestre, sou professor."

Lembro que quando era comissária, as pessoas ficavam espantadas, surpresas e super interessadas no que eu fazia.

"Ah, que demais, sempre sonhei em ser aeromoça..."
"Pra onde você voa? Ah, deve ser muuuito bom, né?"
"Jura? Ah, você deve conhecer o mundo todo..."
"Comissária??? Ah, fala aí, você já teve caso com piloto??"

Geralmente o comentário começava com um sonoro "Ah!" de admiração. É algo que mexe com o imaginário de todos, viajar, ser livre, descobrir portos novos...

Então, quando fechei a mala, deixei de lado o coque e a meia calça, os "Ah" passaram a ser de desapontamento.

"Ah... Professora? Legal..."
"Nossa, mas paga bem? Você não ganhava mais como comissária?"

Claro que há quem admire e entenda o valor, mas o sentimento geral é de fracasso, como se eu tivesse estudado anos, como se eu fizesse Mestrado na área por pura falta de opção...

Ninguém imagina, que no meu último dia de aula do 3o colegial, eu prometi voltar...
"I´ll be back, baby!"
(na época um "Ich komme sofort, baby..." cabia melhor...)

E mais... Poucos daqueles que menosprezam o que faço, podem sequer imaginar a emoção que sinto em alguns momentos, na sala de aula...

Como hoje...

Ver alunos de 12 anos fazendo seminários sobre grandes autores de literatura...

Ouví-los falar sobre Dostoiévsky, Cervantes, Shakespeare...
Saber que leram um trechinho, que seja, de Flaubert, Neruda, Balzac, Goethe, Dante, Borges....
Ou ainda, que agora sabem que Angola tem grandes nomes, e que sua literatura teve forte influência brasileira...
Ver que conhecem poemas de Vinicius e Cecília Meireles...
E mais que tudo... Ver que alguns deles foram realmente tocados pela pesquisa...

"Pro, eu não entendi muito bem esse conto do Julio Cortázar, é meio maluco, né? Mas eu gostei, achei diferente..."
"Eu comecei a ler o Ernest, pro. (leia-se Ernest Hemingway) Já estou na parte em que eles precisam explodir a ponte!"
"Pro, você me empresta o Madame Bovary? Eu queria ler..."
"Que tal se a gente lesse na sétima série esse do Balzac?"
"O Camões é português? Eu já tinha ouvido falar dele..."

Arte funciona assim, semente por semente... Uma pulguinha atrás da orelha deles hoje, um trecho mais complexo amanhã, e já os visualizo sentados em grupos, embaixo das árvores da escola, discutindo se "Germinal" ainda fala à alma trabalhadora; se todos nós somos um pouco Julian Sorel ou se Brás Cubas realmente representa a consciência brasileira.
Quem sabe, um dia, meus meninos já barbados e minhas meninas já mulheres tenham discussões acaloradas sobre se Hermógenes era mesmo o diabo, ou se era, quem sabe, o próprio Diadorin...

Então, se me perguntam hoje, se dar aula paga bem, eu digo:

"Paga... Muito bem... Meu salário é 3 vezes menor, mas eu sou 3 vezes mais feliz..."

Inté!

11 comentários:

Rodrigo Mahs disse...

Eu fiz um post bem parecido no meu blog, esses dias... A diferença é que eu nem entrei no mercado ainda! Há um abismo enorme entre o que as pessoas pensam da sua profissão e o que ela realmente é.




PS: Eu fiz o caminho inverso. De jeca, passei pra cidade grande. E dei boas risadas, aqui, lendo o post da Igreja. Me lembro no dia em que declarei, pros meus amigos de segundo colegial, que não acreditava em entidade divina superior nenhuma. Foi meu pior erro, porque iniciou-se a famosa discussão do "Porque as coisas são perfeitas", "pra onde os mortos vão" e diversas tentativas de provar que eu estava errado, inclusive utilizando artigos e teorias acadêmicas (!!!) para provar o ponto.

Eu? Eu só dizia "tá, tá". O que eu queria era paz. Quem buscava a guerra eram eles!




(Sim, adoro me perder em devaneios. Perdão!)

Vicky Meiotta disse...

Por mais "lugar comum" que possa parecer minha frase: tem coisas que não têm preço!
Parabéns!

Tati disse...

Oi Rodrigo, benvindo! Eu li seu post sobre publicitários... ri muito com as velhinhas amigas da sua avó falando que iam te ver no Jornal Nacional!
Imagino a comoção que vc causou na sua escola! E suas respostas deveriam ter sido bem simples, né? "Por que as coisas são perfeitas?" -Não são!!!
"Pra onde os mortos vão?" -Pro cemitério... Quer dizer, passam antes pelo IML...
(só pra causar, lógico)
Divague à vontade, os comentários sempre acrescentam o post! E venha mais!

Vicky: Mastercard! hehehe

Anônimo disse...

Eu não poderia concordar mais com esse texto!!! Sinto a mesma coisa... fechar a mala e deixar a meia-calça de lado não foi fácil, mas hoje estou muito mais feliz!!! Adoro os seus textos!!!
Karina

Tati disse...

E eu adoro mais ainda que você os leia, amiga!
Gambatte Kudasai!!!!
rsrsrs

MH disse...

ai que delícia, não?

Comigo era igual quando trabalhava nos navios, a reação das pessoas até hoje é assim. Mas a nova carreira também desperta esse tipo de reação. Mas agora posso mesmo responder empolgada, porque amo o que faço. E na época do navio eu curtia um monte de coisas, mas meu trabalho foi ficando cada vez mais chato.

E você tem a grande sorte de ver as mentes dos alunos se desenvolver, ajudar a criar seres pensantes... o máximo!!

Capitão-Mor disse...

À semelhança de Portugal, a profissão de professor é desprezada no Brasil. Viu as estatísticas sobre o ensino brasileiro publicadas ontem? Vergonhoso! Mas com esses salários quem consegue trablhar com motivação?
E aqui no Nordeste nem vale a pena falar...

Cláudia disse...

Tati
são dos professores dedicados que nos lembramos ao longo da vida.
Daqueles que davam aula e nem pareciam que tavam ensinando alguma coisa.
E nem precisa ser criança. Quando fiz pós em jornalismo internacional na Puc-SP, aula todo sábado das 9h às 17h, tinha um professor que era o máximo.
O único em cuja aula as pessoas chegavam às 9h. Ou melhor chegavam antes, para ter a chance de conversar com ele um tantinho antes da aula começar, mostrar um livro, um artigo, uma coluna, qualquer coisa que nos fizesse trocar idéias com ele.
Disputávamos a atenção dele até durante o almoço, quando ele ia conosco até o restaurante mais próximo: todo mundo queria sentar em volta dele.
Você é deste tipo de psôra (como diz minha filha).
Parabéns, é um dom para poucos.
beijo

Cristina disse...

Todos procuramos a felicidade, e ela aparece nas formas mais estranhas.

Um beijinho e boa semana

Rubina disse...

Tati

É tão importante que gostemos do que fazemos. E iniciar esses pupilos em tão bons escritores é mesmo um privilégio.

Abraço

Tati disse...

MH, trabalhar em navio é praticamente ser comissária... Só que dos mares, né?

Capitão, vi os números sim. Vergonhoso! Mais vergonhoso ainda ver que meu estado está nos dois extremos. As melhores notas (ainda que deprimentes) no nosso interiro e as piores na capital...

Clau, vc tem toda razão, não é só na escola. Também tive grandes mestres na faculdade, e escolhi o maior deles pra ser meu orientador, que sorte que consegui! Uma lição a cada dia!

Oi Cristina, a felicidade tem grandes disfarces, se não estivermos abertos, ela passa batido...

Rubina, concordo 100%, por isso encaro autores assim, em doses homeopáticas, ao infvés de apelar para as adaptações: "Dom Quixote para crianças. Ilustrções de Fulana." Cervantes deve se virar na tumba...

beijos