terça-feira, maio 06, 2008

Barreira do Inferno Episódio Final

Cláudia saíra do encontro com Ana atordoada, sem saber bem porque havia pedido o que lhe pediu. Ana mal conhecia Jonas, como iria convencê-lo a ir a um encontro de swingers? Talvez se falasse em seu nome ele até fosse, mas sabia que Jonas era um tanto pudico, poderia até se ofender com o convite.


Não sabia o que pensar de Álvaro. Cláudia crescera em uma família tradicional, e apesar de estar bem mais aberta para novidades assim, restava ainda em si um pouco da famosa culpa judaico-cristã. Álvaro era um símbolo desse lado um tanto negro que até então Cláudia desconhecia. Ficara aliviada em saber que ele parara de freqüentar o grupo desde que a conhecera, mas conhecia bem a vida para saber que isso era temporário. Ninguém muda da água pro vinho por ninguém, apenas por si mesmo. Logo a novidade do namoro passaria, e ele sentiria saudades da vida antiga. Restava, agora, decidir se estava ou não pronta para ele.

A única certeza que tinha era de que tinha que se preparar para sábado, e devia arranjar uma maneira de levar Álvaro, pois estava decidida que não abriria o jogo com ele. Seria uma conversa constrangedora, e prefiria ver sua expressão de surpresa.
Na sexta feira à noite, encontrou-se com ele na boate e lhe fez um convite.

-Amanhã quero você só para mim, guarde o dia... disse ao pé do ouvido do namorado, de maneira sensual.
Álvaro sorriu excitado, e tentou levá-la para o escritório da boate, enquanto beijava-lhe o pescoço.
-Não, hoje nem pensar, amanhã quero você cheio de energia. Vamos, inclusive, embora mais cedo hoje...
Álvaro ficou intrigado com a namorada, mas não aparentou desconfiança.
Dormiram juntos e no dia seguinte, Cláudia assumiu o volante.

-Vai vendado, querido, assim é mais excitante...
-O quê? Não, de maneira nenhuma...
Enquanto negava o pedido da namorada, era vendado por ela, com uma gravata que ela comprara especialmente para a ocasião. De maneira doce e feminina, ela fez um biquinho infantil e convenceu-o a entrar no jogo.

Logo chegaram ao endereço que Ana lhe havia passado. Cláudia desligou o carro e desvendou o namorado, que ao perceber onde estava, ficou incrédulo. Abriu a boca, olhou para Cláudia, que impassiva ao volante sorria para ele.

-Ars Amatoria, né?
-Como...
-A sua cara inventar um nome assim para um grupo de swing....Quantas vezes você assistiu a De olhos bem fechados para criar isso?
-Clau...
-Vamos? Ou você vai ficar no carro? Eu vim para me divertir, com ou sem você... hahaha, vai acabar sendo assim mesmo, né?

Cláudia começou a se dirigir para a casa, olhou para trás e reparou que Álvaro caminhava devagar, ainda besta com o que via.

Logo na entrada viu Jonas, um pouco pálido, e ele sorriu sem graça ao ver a amiga.

-Cláudia, foi sua a idéia de me chamar aqui, mesmo?
-Foi, acho que hoje podemos resolver algumas tensões que há entre nós, não?

Álvaro pela primeira vez sentiu ciúmes. Nunca havia sido acometido por esse sentimento besta que faria dele fraco e comprometido. Sim, pois ciúmes é coisa de gente comprometida, de alguma forma... Percebeu que não se sentia confortável em dividir Cláudia com outros homens, quando avistou Rebeca, de mãos dadas com Ana, que lhe sorria maliciosamente...

-Ah, Ana... Agora faz sentido...

A reunião começou, e Cláudia aproximou-se dele procurando seduzí-lo.
-Você viu a loira? Vamos lá, já chamei ela para repetirmos a dose...

Álvaro se esqueceu do ciúmes e sentiu-se em casa novamente. Tinha saudades do grupo, e com a aprovação de Cláudia e sua disponibilidade de experimentar coisas novas seria tudo perfeito. Ficou tão envolvido com a situação que pulou do sofá quando sentiu uma mão masculina acariciando-lhe as costas. Cláudia tinha trazido para junto de si o famoso e jovem deputado federal, que tinha aceitado um ménage com ela e Álvaro.

-Não! Não, desculpe, mas não dá... - Álvaro a puxou para a varanda- Nunca vivi isso aqui, por que isso agora? Não estava bom com a loira?
-Rebeca. Ela se chama Rebeca. E sim, estava ótimo, mas eu também tenho as minhas vontades, e agora é a minha vez. Você vai fazer isso por mim?

Álvaro, apesar de seu estilo livre de vida tinha seus limites. Ficou quieto, surpreso com a titude assertiva da namorada.

-Não, não vou.

Cláudia, que esperava essa reação do português, virou-se e voltou à sala. Encontrou Jonas em pé, observando a cena e o beijou. Álvaro, da varanda, a observou se entregar para o colega de trabalho e percebeu que a perdia.
De repente, sentiu o toque da mão de Ana em seu ombro.
-Você pertence a este mundo, Álvaro, não ao mundo dela...
-Mas ela está aqui...
-Só para te mostrar que pode. Se quiser, pode. Mas ela não quer...

Álvaro se livrou do toque de Ana, vestiu-se e saiu, a pé, atordoado com tudo.
Já não sabia mais a que mundo pertencia.
Olhou para trás e viu Cláudia saindo com Jonas, os dois abraçados e parecendo um tanto constrangidos.
Quis esperá-la, mas Jonas entrou com ela no carro. Ao passarem por ele, petrificado na beira da estrada, só pode notar um leve e triste sorriso de Cláudia.
O último sorriso seu que veria.

9 comentários:

Maríita disse...

Excelente final Tati! Apesar de que acho que foi muito dura com o Álvaro...claro, ele não podia ficar com a Cláudia no pé em que as coisas estavam, mas dá-me a sensação (muito amarga) que a Ana venceu e odeio gente mesquinha...

Bem, noutra ordem de ideias, espero voltar a lê-la com mais assiduidade, sempre que o Romeu deixar.

Beijinhos

Capitão-Mor disse...

Normalmente os portugas gostam de dar uma de gostosões nos trópicos e depois acaba nisto! :)
Um bom final. Talvez eu tivesse optado por uma via menos moralista... Eh,eh,eh!

Valeu esta co-produção luso-brasileira. Espero que se tenha divertido tanto quanto eu.
Abraço

Evelyne Furtado disse...

Claro que o capitão daria um fim menos moralista, mas foi escrito por mãos femininas e ficou muito convincente, Tati. Parabéns aos dois.

Cristina disse...

Ohhhh... não ficaram juntos?? Afinal de contas, louco ou não, o Álvaro gostava dela! À sua maneira estranha!

Adoreiiii... super-surpreendente! :)

Parabéns Capitão pela ideia, e parabéns Tati por acompanhar!

Carla disse...

não sei se seria o meu fim mas gostei imensa da criatividade e da descrição
parabéns e venham mais histórias

Zé Povinho disse...

Quem brinca com o fogo queima-se, e quem não gosta tem bom remédio, não entra em caldinhos.
Só fiquei encafifado com o facto de o tipo ser portuga, mas espero que tenha sido apenas coincidência, não é Capitão-Mor?
Abraço do Zé

AnadoCastelo disse...

Muito bom final. Muita imaginação. Eu também não teria sido tão radical, mas ele mereceu.
Amei a série toda.
Venham mais.
Bjs

marta disse...

Um final feito por uma Mulher.

Gostei muito de toda a série, mas adorei o final

Parabéns a todos.

Carol Montone disse...

puxa as coisas estão picantes por aqui. adorei. comecei pelo final, agora correrei para pegar o fio da meada....
sua prosa é envolvente e inteligente, como sempre. saudades!!!passei apra dar Feliz dia das Mães!!!!o Romeo está uma delícia...e esses olhinhos puxados...ai que fofo
beijoss mamaãe liiiiinda
saudades
Carol